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Pessoas não são números

Queria escrever sobre o cheiro do mar, sobre o som da noite, sobre uma das 3 melhores ostras do mundo e que está no Cabaraquara. Como eu queria, mas morreram mais de 574 mil pessoas na pandemia do Covid.

574 mil famílias enlutadas e se fizer uma média de 10 pessoas por núcleo familiar, chegamos a quase 6 milhões de pessoas. É muita dor! O site “Inumeráveis” conta um pouco da história dessas pessoas. Coloca sentimento e de uma forma leve, faz que não sejam uma estatística. Queria escrever para o site, sei como fazer, fui covarde e não consegui. Como ligaria para essas famílias para perguntar sobre os que foram embora? Qual acolhimento ou conforto poderia dar? Não tive e não tenho estrutura, tenho vontade de chorar assistindo a normalização das mortes, choraria junto com as famílias. Sinto que enfraqueci muito em 1 ano e meio. Escuto que “só morreram” e imediatamente lembro do meu amigo Clélio Toffoli Jr., ele sempre diz, em tom irônico, que “o fracasso subiu à cabeça”. Realmente, tenho problemas com banalizações.

O país virou um imbróglio danado, faltou entre tantas ou centenas de coisas, uma comunicação séria, didática, unificada e científica, vinda do Governo Federal. Faltou respeito com a medicina, com toda a área de saúde. Eu não tomo nenhum medicamento sem orientação médica, para saber o que é melhor para mim, uma pessoa cursou 6 anos de medicina, fez residência médica e na maioria das vezes, fez especialização. Para mim, qualquer coisa que fuja desse padrão é charlatanismo. Não, obrigada, estou fora. Estou fora com chazinhos espetaculares, minha mãe quase morreu por conta de um chá de guaco. Nem escuto essas sugestões e passo batida.

Há uns quinze dias, tive um compromisso, em Matinhos. Pensei em fazer hora e fui dar aquela clássica olhadinha numa vitrine. Não tinha intenção de comprar nada, mas não rolou. Nem vai rolar nunca mais. A dona estava sem máscara e detonando as vacinas. Acho engraçado como as pessoas pensam que nadam de braçada em conhecimento científico. Quando tomei a primeira dose, só vi a marca quando já estava escrita e marcada a data da segunda dose. Minha obrigação é levantar a manga, oferecer meu braço e agradecer por ainda estar viva. Sou grata à ciência. Dia 26/08 (quinta-feira), será a minha segunda dose. E a reação? Que venha! Os bebês aguentam reações de muitas vacinas sem poderem se queixar e ainda são chamados de chatinhos e manhosos. Inclusive, minha solidariedade a eles.
Desejo que dias melhores cheguem logo. Que eu possa reencontrar pessoas que gosto tanto. Dar um abraço no meu irmão Paulo, devo isso desde maio de 2020. Quero sair por aí como no samba do Zé Keti!

Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
Se houver motivo
É mais um samba que eu faço”

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