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Votação decide ave símbolo de Morretes. Saiba qual foi a escolhida.

Saíra-militar fotografada em Morretes (foto: Raphael Sobania)

Durante os 45 dias de votação online, a população e os turistas de Morretes puderam conhecer melhor as cinco espécies selecionadas para a disputa.

Participaram da “eleição”: Tucano-de-bico-preto, Pica-pau-de-cabeça-amarela, Surucuá-grande-de-barriga-amarela e Bonito-lindo. A seleção das espécies foi feita pelos ornitólogos Raphael Sobania e Fernando Costa Straube e pelo guia de observação de aves Luciano Amaral Breves.

O turismo é, atualmente, o maior setor gerador de emprego e renda no município. A Mata Atlântica abriga espécies únicas da fauna e da flora, algumas inclusive só encontradas nesse bioma. A campanha foi realizada para valorizar esse tesouro natural, estimular ainda mais o turismo de natureza e engajar a comunidade na conservação.

A imagem da Saíra-militar será agregada aos símbolos oficiais do município. Mais do que criar uma identidade, isso conecta a população com o meio ambiente, por meio de um exemplo, nativo, conhecido e reconhecível. Vários países têm sua ave símbolo oficializada, bem como unidades da federação e também diversos municípios brasileiros.
O próximo passo é encaminhar um projeto de lei para a Câmara Municipal e oficializar a escolha popular.

“Além de valorizar nosso bioma, esta iniciativa posiciona Morretes como um Município que reconhece a importância da conservação do meio ambiente e incentiva o turismo de natureza através da observação de aves (birdwatching), uma atividade essencial para aproximar e sensibilizar as pessoas de questões relacionadas à proteção da natureza, afirma o Prefeito de Morretes, Sebastião Brindarolli Junior.

“Quando se divulga uma ou várias espécies, como aqui, você faz com que a população entre em contato com esses exemplares da fauna e passe a respeitar, conhecer e criar um sentimento de pertencimento à região. Também é importante para que as pessoas entendam, desde cedo, que preservando, o turismo vem. Morretes possui uma paisagem e uma exuberância espetaculares, comparáveis aos melhores destinos turísticos do mundo. Mas isso precisa ser valorizado. Essa campanha também é uma forma de valorizar o turismo e as espécies nativas que existem na região”, ressalta Giem Guimarães, diretor executivo do Observatório de Justiça e Conservação.

A artista Birgitte Tümmler presenteou o município com um desenho original da Saíra-militar que poderá ser usado nos símbolos oficiais da cidade (Imagem: OJC / Divulgação)

Confira o resultado da votação

A saíra-militar

O ano era 1776, quando o zoólogo alemão Philipp Statius Müller publica sua obra-maior, uma revisão completa dos bichos que foram, algumas décadas antes, estudados por Carl von Linné, o conhecido fundador da classificação dos animais e plantas.

Dentre tantos outros pássaros, e muitos brasileiros, um deles em especial chama a atenção do naturalista, por sua encantadora profusão de cores. Para distingui-lo dos demais, ele decide ressaltar uma característica: “Blaukopf”, ou seja, cabeça azul. Com isso, traduzindo ao latim, o pássaro passou a se chamar Tangara cyanocephala, de mesma tradução.

Apesar da simplificação, não há dúvida que o estudioso ficou impressionado com seu espetacular colorido. Muito além da belíssima cabeça azul, havia também um tipo de lenço vermelho intenso que lhe contornava o pescoço e nuca. Além disso, as costas negras revelavam um contraste especial criado pelas linhas verde-limão, finas e quase geométricas, formadas pela borda das penas das asas. Para completar, ainda havia uma pequena mancha amarelo-ouro, que se destacava nas asas, como se fosse uma dragona.

A partir de então, aquele que era apenas um desconhecido pássaro conhecido por um ou dois espécimes de museu, passou a ser, ao longo dos séculos, encontrado em diversas regiões do leste do Brasil e mesmo eventualmente em poucos locais no Paraguai e Argentina. Conforme o conhecimento sobre sua área de ocorrência foi aumentando, descobriu-se algo importante: ele era uma ave quase que exclusivamente brasileira que, em grandes números, vivia nas úmidas florestas das regiões litorâneas brasileiras. Como dizem os cientistas, confirmou-se que se tratava de uma espécie endêmica (restrita, exclusiva) da Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos em biodiversidade em todo o planeta e, ao mesmo tempo, um dos mais ameaçados.

Essa pequena joia de nossa avifauna, apesar de medir pouco menos do que 15 cm, merece sem dúvida um espaço destacado. Afinal, bem antes de Müller ter formalizado seu nome científico, ela já era conhecida de nossos habitantes. Dentre as denominações pelas quais era conhecida pela nossa população, estão: saíra-de-lenço, soldadinho, verdelim, saíra-da-roça, pintor-coleira e, em especial, saíra-militar – nome que remete à aparência de um uniforme, graças à apresentação impecável e ao colorido tão diversificado de sua plumagem.

As fêmeas têm o mesmo colorido, porém, um pouco mais apagado o que é uma grande vantagem quando estão reproduzindo e, assim, não chamar muita atenção dos predadores para o ninho e filhotes. Durante a reprodução, que se inicia na primavera, constroem seu ninho, em formato de taça e finamente ornamentado por folhas e filamentos de plantas. Escondem-no com perícia em uma forquilha, bromélia a meia altura da floresta. Ali põe três ovos bege com pintas marrons escuras que serão incubados por cerca de duas semanas.

A saíra-militar aprecia a floresta mais densa, fechada e protegida, mas pode também ser encontrada em lugares mais abertos, como as bordas da mata. Vive em pequenos grupos, com quatro, seis e até dez ou mais pássaros, muitas vezes misturando-se com seu parente também conhecido, a saíra-sete-cores. Dessa forma, quando associadas as duas espécies – e mesmo frugívoros como o tié-preto, o gaturamo, o tié-sangue, o saí-azul e várias outras – causam momentos muito especiais pela beleza de colorido, disperso, profundo e intenso. Cada qual com o seu; todos contribuindo com algum detalhe de rara beleza!

Frequentemente aparece nos jardins e pomares. Assim, trazem grande contentamento aos moradores ou visitantes do litoral e Serra do Mar, revelando um verdadeiro espetáculo de cores e piados agudos, chamando a atenção até mesmo dos observadores menos atentos. Para sua dieta, aprecia os insetos, como lagartas e pequenos voadores mas sua alimentação é baseada em frutos. Escolhe árvores carregadas com frutinhos coloridos, principalmente os vermelhos, como as bagas do caruru e uma infinidade de outras. O interessante é que, ingerindo esses frutos, acaba por contribuir com a dispersão de muitas plantas pois as sementes irão ser liberadas com as fezes, em locais mais distantes. A saíra-militar, portanto, é uma jardineira da floresta! E mais: como também aprecia o néctar, o pássaro também tem importância na polinização das flores, levando para lá e para cá os grãos de pólen presos em sua plumagem.

Em todos os municípios da Serra do Mar e do litoral do Paraná, a saíra-militar é uma das aves mais conhecidas e, também, representa com propriedade todo o ecossistema do leste paranaense. Conta, por esse motivo, com fortes laços de afeto com os moradores locais que, oferecendo frutos nos quintais, podem apreciar diariamente sua presença tão marcante. Seus bandos multicoloridos simbolizam a união de todos em prol da preservação das florestas do litoral do Paraná, bem como todos os esforços que devem ser movidos para a proteção desse patrimônio natural tão bonito e tão importante.

Fernando C. Straube

Foto: OJC / Divulgação

Fonte: Observatório de Justiça e Conservação (OJC)

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