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Leal ou fiel

O que é mais importante, a lealdade ou a fidelidade? Há tempos que penso sobre este assunto.

A diferença fundamental é que a fidelidade é baseada em convenções e a lealdade vem de sentimentos. Sou fiel e não vou trair porque jurei. O que as pessoas vão pensar? Como vou me explicar? Sou leal, então pode acontecer qualquer coisa ilegal ou imoral e me manterei ao lado da pessoa. Porque não interessa o julgamento, mas a minha consciência.

Na amizade isto é muito claro. Mais claro e específico do que nas relações amorosas. Presto atenção nas atitudes, a falta de reconhecimento por quem ajuda, é maior que a ingratidão, é deslealdade. A pessoa estende a mão em um momento difícil e leva como pagamento uma traição. Não, não é excesso de expectativa esperar alguma coisa boa, o problema é se vem uma ruim. É inaceitável.

O amigo leal lustra a nuca para ter a cabeça guilhotinada junto. O fiel dá apoio superficial. Busco na minha memória, quantas pessoas se arriscaram por mim. Concluo que são poucas. Na minha vida agitada, muitas vezes defendo posições polêmicas e lá vem uma avalanche de críticas quase sempre em forma de ataque. O famoso cancelamento. Inclusive, me colocando como a bruxa má e me desqualificando. Gostaria que surgisse uma legião de defensores. Obviamente, não acontece. Porém, fico feliz em ver a qualidade de quem se expõe ao meu favor.

Muita gente confunde a minha defesa exacerbada aos meus amigos e sou classificada como passional. Não acho ruim. Afinal, me doer por eles faz parte da minha natureza. Sempre valem as máximas: só eu critico, só eu vejo os defeitos. Isto não dá o direito a mais ninguém fazer. Estou pronta para defender qualquer coisa por mais absurda que pareça.

Nas relações profissionais é bem possível uma boa dose de lealdade. Conheço o Sr. Albanir desde minha infância ou adolescência. Ele tem um táxi, em Matinhos. Há um tempo, conversei com ele e ele não desligou o celular. Pensei que queria falar mais alguma coisa comigo, mas já estava rolando uma conversa com a passageira. Contou que me levava até o ferry boat e a pedido da minha mãe, ficava esperando o ferry  sair para ter certeza que tinha embarcado bem. Logo em seguida, desfiou um rosário de elogios a mim e a ela. Foi uma emoção e tanto. Numa profissão que tempo é dinheiro, no taxímetro ligado é que se ganha, ele ficava lá parado para cumprir o combinado. Minha mãe jamais saberia, eu nem sonhava que tinha esse acerto, mas ele sempre foi leal.

Recentemente, passei por perdas e problemas que me fizeram refletir muito sobre a morte. Resolvi esclarecer para mim mesma, amigos e família quais são meus desejos sobre doação de órgãos e cremação. Podem me esvaziar e me repartir. Que tal ser socializada na morte? Quero um velório animado com música e no telão da homenagem, podem exibir meus piores momentos. Fotos que não fiquei bem e trechos de textos raivosos. Bem divertido. Meus amigos leais farão isto por mim.

Não poderia terminar esta crônica com as frases que gosto de dizer aos meus amigos que são poucos, mas muito queridos. Fique bem. Se cuide. Resolvo com quem? Fique firme. E nos casos mais extremos: coloco a capa e vou voando.

Passional? Que nada. Só leal.

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