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Guaratuba rememora desabamento na margem da baía em 1968

Há 53 anos Guaratuba vivia uma das suas noites mais dramáticas. Foi em 22 de setembro de 1968 que a rua da Praia, às margens da baía, afundou nas águas. Com a rua, vários prédios, como o prédio São Luís (prefeitura), casas comerciais e domicílios também afundaram.

Cerca de 170 pessoas ficaram desabrigadas, muitas famílias fugiram com medo que a toda a cidade afundasse, mas felizmente, nenhuma vítima foi registrada nesse desastre causado pela erosão marinha.

Moradores antigos de Guaratuba contam o que lembram desse dia que ficou marcado na história da cidade. Confira o vídeo produzido pela Prefeitura de Guaratuba.

O DESASTRE DE GUARATUBA
Edição de texto publicado por Rocio Bevervanso, secretária da Cultura e do Turismo de Guaratuba)

O anoitecer do dia 22 para 23 de setembro do ano de 1968 ficou para sempre gravado na memória das familias que perderam os seus pertences. 53 anos já se passaram.

Uma análise feita pelo Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas do Estado do Paraná, realizou um estudo de geomorfologia aplicada na época e constatou que as causas imediatas do desastre de Guaratuba, provavelmente deva-se a construção maciça de um trapiche de pedras entre os anos de 1950 e 1955.

Anteriormente, existia um trapiche sustentado por estacas de madeira, lá pelos idos de 1908 ou 1912, que ficava um pouco mais distante que o de alvenaria, dando total vazão da água das marés.

O píer de alvenaria tinha cerca de 50 metros de comprimento por 5 metros de largura, com um vão aberto de 4 metros de largura, permitindo a circulação precária das águas na preamar (maré alta). Algum tempo depois o vão de 4 metros foi substituído por uma tubulação, a qual foi entulhada de sedimentos (substâncias minerais, rochosas ou orgânicas depositadas no local), que impediram a circulação das águas. Talvez na ocasião não tenha sido notada erosão ou desequilíbrio.

Além do trapiche, a ocupação humana, o aterro da rua e o muro de arrimo construído no ano de 1955 possam ter agravado a situação, impedindo a movimentação das águas da baía, que encontraram resistência no paredão (muro), lentamente minando por baixo.

A cicatriz principal formou-se em cerca de 3 horas. O processo de afundamento naquela noite foi lento. Uma sondagem submarina realizada no local, revelou detritos dos escombros das construções destruídas até a cota de aproximadamente 20 metros abaixo da maré, concluindo -se que o processo erosivo atuou pelo menos até uma profundidade de 30 metros.

Segundo o Boletim de Ocorrência, a cicatriz resultante da erosão de 22 para 23 de setembro de 1968, provocou grande desequilíbrio, oferecendo riscos para o restante do muro de arrimo e as construções fronteiriças, além da área afetada, pois o fundo da baía tem um equilíbrio instável devido as correntes marítimas.

Concluiu-se que o resultado da catástrofe de 1968 deixou registrado as seguintes cicatrizes: do belissimo prédio da Prefeitura Municipal restou por poucas horas, apenas parte de um paredão que precisou ser demolido;
o prédio da família Luiz Miranda apresentou enormes rachaduras na parte dos fundos ameaçando cair;
o prédio da familia José Azulay onde funcionava a Loja da Família, de Agnelo Ramos Pinto, afundou;
o restaurante da famíia Luiz Araujo, da Dona Helena, onde funcionava a Pensão Marabá, foi dividida ao meio e tudo foi ao fundo;
o edifício da familia Floriano Milek, com três pavimentos, onde se achavam funcionando uma loja de roupas, uma de móveis, uma panificadora e a residência, desapareceu;
o edifício de dois pavimentos da família James Louri partiu em vários pedaços e afundou;
o bar Ventania, da família Jorge Pompedeu, e a sua casa toda em madeira tiveram os mesmo destino das demais construções;
a residência da família do escritor e historiador Joaquim da Silva Mafra não soterrou apenas a construção, mas também desapareceram nas águas inúmeros textos e relatos dos livros que estavam sendo escritos sobre Guaratuba;
a sede do Clube Ipiranga Esporte Clube, fundado em 9 de dezembro de 1952, afundou levando toda a história dos esportista da Vila de Guaratuba;
o comércio do empresario Patricio Vidal de Braga, sua residência e também da família de Edmundo Sadzinski ficaram por algumas horas suspensos no ar, até ruírem definitivamente;
o armazem da família de Abrão Maia, onde achava-se instalada a primeira fábrica de gelo, sucumbiu levando toda a história de vida dos mesmos … tal qual dos demais.

Foram computadas perdas totais de 35 famílias que fugiram das suas casas, estando apenas com as roupas do corpo, rumando para Garuva, Curitiba, Santa Catarina, ou onde um parente ou um amigo que pudesse abrigá-los.

Houve muito pânico, desespero, e no amanhecer do dia seguinte, o que podia ser visto, eram as águas da baía de Guaratuba coalhadas de pertences, móveis destruídos, pedaços de papéis, brinquedos, roupas e desolação.
O Grupo de Escoteiros Brigadeiro Peralta, do Círculo Militar do Paraná, prestou valioso auxílio para a localização de documentos perdidos durante a operação de ajuda em Guaratuba.

A equipe do Corpo de Bombeiros, Destacamento Policial, Grupo de Fogo de Paranaguá, o coronel RR Germano do Nascimento, delegado de Polícia de Guaratuba, mergulhadores, equipe de geólogos sob o comando de João José Bigarella, Jorge Xavier da Silva e Geruza Maria Duarte traçavam gráficos de tudo o que observavam e constatavam, ainda sem saber precisamente os motivos da catástrofe.

E nesse mês de setembro, a Secretaria Municipal da Cultura e do Turismo está com a Exposição Arqueológica na Casa da Cultura, em frente à baía de Guaratuba, contando toda essa história com material reunido pelo professor e arqueólogo Marcos Vasconcelos Gernet juntamente com a equipe da secretaria.

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