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A síndrome do centésimo macaco

Estima-se que se 1% da população iniciar um processo de mudança em seus hábitos culturais, haverá um desencadeamento geométrico envolvendo por sintonia o restante da população.

Essa premissa estatística fundamentou a tese desenvolvida pelo biólogo Lyall Watson, conhecida como a “síndrome do centésimo macaco”.

A ‘síndrome’ surgiu de uma experiência, feita com um grupo de 100 macacos, habitantes de uma ilha próxima ao Japão. Introduziu-se na ilha um novo alimento: batatas-doces recentemente desenterradas e ‘sujas’ de terra. No início o alimento foi recusado pelos macacos. O fato de que na dieta tradicional do grupo não ser necessário qualquer preparo, tornou-os relutantes em comer as batatas ‘sujas’ de terra. O impasse só foi resolvido quando um dos macacos teve a iniciativa de lavar as batatas num riacho. A atitude foi copiada pela mãe, irmãos, a família inteira e, por extensão, pelos demais integrantes do grupo.

Foi quando, Watson observou o fenômeno da sintonia em cadeia, baseado na prática progressiva de cada indivíduo em lavar as batatas no riacho, até chegar ao centésimo integrante do grupo.

Curiosamente, a partir desse momento, macacos de outras ilhas e que não tinham contato algum com aquele grupo, começaram a fazer a mesma coisa sem motivo aparente.

A explicação está na constatação de que, quando os pensamentos comuns entre seres vivos têm origem em necessidades comuns, acabam por encontrar um caminho através da consciência coletiva.

A analogia que pode ser feita entre essas observações e as necessidades surgidas com os novos paradigmas ambientais é que eles representam o ponto de partida para a uma sensibilização que poderá levar a sustentabilidade.

Atualmente percebe-se a preocupação e o interesse crescente das pessoas com as questões ambientais, notadamente quanto à disponibilidade de água potável e os efeitos das mudanças no clima.

No entanto, entre os políticos brasileiros uma parte considerável parece permanecer distante dessa realidade. Não incluem nas ‘pautas’, propostas e ações voltadas ao meio ambiente; limita-se a temas recorrentes como saúde, educação, emprego e segurança. A grande maioria não percebe, não faz por perceber, ou não quer perceber que ‘crescimento’ econômico não significa, a rigor, ‘desenvolvimento’ e que questões sociais não podem mais ficar dissociadas das condicionantes ambientais. Não há mais ‘espaço politico’ para isso, motivo talvez do ‘discurso’ genericamente pró-ambiente. Todos se dizem a favor da natureza…

Os políticos em geral – senadores, deputados, vereadores e gestores públicos – se percebessem que o processo de mudança não é mais silencioso, por força de ofício, deveriam colocar-se como indutores da tendência que é latente nas comunidades que representam. Infelizmente, é perceptível que a maior parte considera a ecologia um empecilho para o ‘progresso’.

Numa perspectiva local, espera-se que surja uma reflexão positiva que proporcione resultados positivos na discussão e aprovação do Plano Diretor de Itapoá. O projeto quando elaborado, envolveu parcela representativa da sociedade trazendo seus anseios, expectativas, sugestões e propostas, incluindo na pauta as prementes necessidades ambientais.

Quem sabe sejam definidas, finalmente, politicas públicas relacionadas à proteção do meio ambiente, a exemplo das proposições para criação do Sistema de Unidades de Conservação Municipal, para a criação do Parque Linear do Saí Mirim, a implantação do Projeto Orla e o planejamento e ordenamento da Área Retroportuária entre outras.

Percebe-se a preocupação e o interesse ampliado da população em diretrizes que venham trazer um equilíbrio econômico, social e ambiental para Itapoá.

Com a palavra os senhores e a senhora vereadores.

Itapoá (outono), maio de 2015.

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