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Novo ano velho 

“Adeus Ano Velho, feliz Ano Novo”, diz a canção na virada do ano. Versos que serão cantados quando o Ano Novo virar Ano Velho. Querendo ou não, envelhecer é inexorável. 

Contraponto da juventude a velhice é pouco presente. Na atualidade, quase nada admirada e muito menos cultuada. Não é lembrada e, muitas vezes, sequer respeitada. Basta olhar ao redor: tudo que ‘respira, transpira e conspira’ no dizer do poeta Leminski, é a juventude. Meninos, meninas, jovens, adolescentes, ‘adultecentes’ surgem nos programas de televisão, nos cinemas, nos cartazes, nas revistas e na mídia como uma ode consumista e volátil da juventude. Da velhice pouco se vê. Não dá Ibope.

Com o passar do tempo o corpo vai se transformando. Rugas marcam a pele, o cabelo rareia e embranquece, a atividade física diminui e a expressão ‘velho’ surge como sinônimo de obsoleto, superado e até mesmo desnecessário ou descartável.

Mas, então, o que fazer na passagem da juventude, alegre e vibrante, para o novo grupo não tão glamouroso? Pergunta com poucas respostas.

O psiquiatra Carl Jung, compara a vida humana com o caminho do Sol. Ao amanhecer vai, gradativamente, adquirindo luz e calor; a partir do meio do dia, o avanço é menos intenso, segue reduzindo o brilho, até apagar no poente. Segundo Jung, é difícil perceber que essa diminuição não significa desvalorização, mas sim uma troca de sentido, pois o sol jamais se apaga.

Existem pessoas e não são poucas, que perseguem o mito da eterna juventude, como se o entardecer da vida não tivesse o mínimo valor. Outras se apegam as realizações do passado e tornam-se contrárias a qualquer novidade. Renitentes, ficam reduzidas a lembranças.

O jovem sugere Jung, precisa encontrar na relação com o mundo o que o homem na velhice deveria encontar dentro de si. “Há uma necessidade de se reconhecer o engano das convicções defendidas até então, de sentir-se a inverdade das verdades”, diz.

Em muitas sociedades modernas, entre elas a nossa, o idoso não encontra apoio. Não é reconhecido como a pessoa experiente, capaz de perceber os acontecimentos que fogem à pressa dos jovens.

Deveríamos apreender com a cultura oriental, que honra os velhos pela capacidade de reflexão que têm; que considera a velhice imagem da imortalidade e da sabedoria.

Consta em antigos escritos, que o sábio Lao-Tsé, no século VI a.C., impune e cheio de glória, nasceu com os cabelos brancos e o aspecto de ancião.

Esta crônica é dedicada a Mônica em seus 95 anos de juventude, rebeldia e persistencia.

Itapoá (verão), 2015.

 

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