Peixe invasor é estudado para a pesca sustentável e a conservação no Litoral do Paraná
Peixe-sapo, espécie exótica, está sendo monitorado por pescadores artesanais e passa a ser estudado como alternativa econômica e estratégia de controle ambiental

Espécie não-nativa introduzida no Complexo Estuarino de Paranaguá, o peixe-sapo do Golfo (Opsanus beta) tem sido capturado com frequência crescente no litoral do Paraná e passou a ocupar papel central em um projeto do Instituto Meros do Brasil, com o apoio do Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP). Introduzido provavelmente por meio da água de lastro de navios mercantes, o peixe-sapo é um predador eficiente e não possui inimigos naturais no estuário, o que representa um risco à biodiversidade local. A espécie é carnívora e compete por alimento e abrigo com peixes nativos e se alimenta de siris, camarões, caranguejos, moluscos e filhotes de espécies de interesse comercial, ampliando os impactos sobre a pesca artesanal.
Segundo o biólogo, coordenador do projeto Gestão Participativa e presidente do Instituto Meros do Brasil, Matheus Oliveira Freitas, “o peixe-sapo é uma espécie que já está presente no estuário, há cerca de 15 anos, e causa impactos relevantes sobre a biodiversidade e a pesca. A proposta do projeto é entender melhor essa dinâmica, envolver os pescadores no monitoramento e avaliar se essa espécie pode ser transformada em uma oportunidade, seja como fonte de renda ou como estratégia de controle ambiental”, explica.
Pescadores de seis comunidades do estuário participam do monitoramento por meio de armadilhas padronizadas e enviam registros periódicos para análise da equipe técnica. Até o momento, o monitoramento realizado registrou a captura de 85 peixes-sapos em 921 gaiolas de pesca, com maior incidência em áreas próximas ao Porto de Paranaguá e regiões com menor influência de água doce. As capturas se concentraram principalmente na Ilha do Amparo, com 53 registros, seguida por Vila de São Miguel (13), Barbados (10) e Ilha das Peças (9). Não houve registros em Antonina (PR) e Guaraqueçaba (PR).
Paralelamente, o Instituto Meros do Brasil avalia a qualidade da carne do peixe-sapo, com análises laboratoriais para identificar possíveis contaminações químicas. “Se os estudos indicarem que o consumo é seguro, a ideia é estimular a criação de um mercado para essa espécie, com oficinas, desenvolvimento de receitas regionais e o envolvimento de chefs de cozinha. É uma forma de transformar um problema ambiental em uma alternativa de renda e de controle populacional”, explica Freitas.
Caso o consumo não seja recomendado, a estratégia prevê o abate controlado e a devolução do peixe ao ambiente como fonte de energia para outras espécies, contribuindo para o equilíbrio do ecossistema.
Redes cada vez mais vazias
Para os pescadores, o acompanhamento desta espécie também ajuda a evidenciar mudanças no estuário e os desafios enfrentados pela atividade pesqueira. “O fluxo de peixe que tinha no canal diminuiu bastante. Na época do meu pai, a gente capturava muito peixe, com muita rapidez. Hoje, você tem que correr muito atrás para tentar pegar, não é fácil como era antigamente. Então mudou muito. Não sei se é a indústria, não sei se é o próprio pescador, alguns que ainda praticam pesca ilegal”, relata Gildo Malaquias, pescador artesanal participante do monitoramento do projeto.
O pescador diz ter uma expectativa positiva caso o peixe-sapo seja aprovado para consumo. “Se ele for considerado seguro para consumo, a gente vê como fonte de renda. Porque já existe na nossa região, já invadiu bastante. Temos que preservar para que nossos filhos, netos e bisnetos possam tirar sustento dali, sem agredir o meio ambiente”, complementa.
Para Freitas, o envolvimento direto das comunidades é o principal diferencial da iniciativa. “A gente não faz conservação sem as pessoas. Os pescadores são protagonistas, ajudam a gerar dados, entender os impactos e construir soluções que fazem sentido para a realidade local”, afirma.
Com duração de dois anos e investimento de mais de R$ 700 mil, viabilizado por meio de investimento do BLP, o projeto Gestão Participativa para o Ordenamento de Pescarias, Controle de Espécies Não Nativas e Fortalecimento de Unidades de Conservação no Complexo Estuarino de Paranaguá atua em áreas protegidas estratégicas do litoral paranaense, como a APA de Guaratuba, a APA de Guaraqueçaba, o Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais e o Parque Estadual do Boguaçu.
A iniciativa conta com a parceria do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio – NGI Antonina–Guaraqueçaba), da Associação MarBrasil, da Diretoria de Patrimônio Natural do Instituto Água e Terra do Paraná (IAT) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), por meio do Setor de Ciências da Terra e do Departamento de Geografia. Para saber mais sobre este projeto e outras iniciativas realizadas pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná, acesse www.biodiversidadelitoralpr.com.br.
Sobre o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná
Criado em 2021, o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná promove a conservação, a pesquisa e o uso responsável dos recursos naturais, fortalecendo Unidades de Conservação e impulsionando o desenvolvimento sustentável do litoral paranaense. Financiado pelo Termo de Acordo Judicial (TAJ) firmado após o vazamento de óleo ocorrido em 2001, o Programa transformou um passivo ambiental em investimento histórico em conservação: serão mais de R$ 110 milhões destinados a iniciativas estratégicas ao longo de dez anos.
A governança do Programa é compartilhada entre organizações da sociedade civil, instituições de ensino superior e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), supervisionados pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público do Paraná. A gestão financeira e operacional do Programa é realizada pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO).
