Correio do Litoral
Notícias do Litoral do Paraná

Quase tragédia no mar de inverno: resgate de cinco banhistas na Praia Central de Guaratuba vira alerta para riscos fora da temporada

Veranico, férias escolares e Festa do Divino aumentaram o movimento no litoral paranaense. Em poucos minutos, cinco pessoas foram arrastadas pela correnteza e uma ação conjunta entre banhistas, guarda-vidas e pescadores evitou uma possível tragédia.

Foto: Gustavo Aquino / Arquivo do Correio do Litoral

A partir de relato de Eduardo Müller Saboia

GUARATUBA – O domingo de 19 de julho de 2026 reunia uma combinação pouco comum de fatores no litoral paranaense. Em pleno período de férias escolares, um veranico levou muitas famílias às praias da região. O céu aberto e as temperaturas elevadas para a época do ano criavam um cenário que lembrava mais um dia de temporada do que um típico domingo de inverno.

A movimentação era reforçada pela tradicional Festa do Divino, um dos principais eventos do calendário local, que atraía visitantes para a cidade. O resultado era uma Praia Central bastante movimentada para os padrões da estação, com famílias aproveitando o dia de sol e crianças brincando próximas à água.

Publicidade

Mas havia um contraste importante que passava despercebido para muitos.

Apesar do clima agradável na areia, o mar continuava apresentando características típicas do inverno: água gelada, ondulações constantes e fortes correntes de arrasto. A aparência tranquila escondia condições capazes de surpreender até banhistas experientes.

Foi nesse cenário que ocorreu um episódio que poderia ter terminado de forma dramática.

O início da ocorrência

Enquanto passava a tarde com familiares e amigos, Eduardo Müller Saboia ouviu uma mulher correndo pela faixa de areia e pedindo ajuda. Ela apontava para o mar e informava que pessoas próximas a ela estavam se afogando.

Ao olhar para a água, era possível identificar um homem adulto e uma jovem já bastante afastados da praia.

Sem a presença imediata de guarda-vidas no local, Eduardo entrou no mar em direção às vítimas. Ao alcançá-las, constatou que o homem já havia chegado a uma região onde conseguia manter-se em pé. A jovem, porém, permanecia sem condições de retornar sozinha à costa.

A cerca de 80 a 100 metros da praia, ela demonstrava sinais de cansaço e risco crescente. Para evitar que o pânico comprometesse o resgate, Eduardo orientou a vítima a manter-se de costas e iniciou a condução até uma área segura, onde fosse possível apoiar os pés no fundo do mar. Pouco depois, a jovem conseguiu sair da situação de risco.

O homem também conseguiu deixar a área perigosa por meios próprios. Parecia o fim da ocorrência. 

Mas era apenas o começo.

Três vítimas ainda estavam no fundo

Ao recuperar a primeira adolescente, surgiu uma informação ainda mais preocupante. Havia outras três adolescentes no mar. E elas estavam muito mais longe da costa.

Segundo o relato, as jovens haviam sido arrastadas pela correnteza e permaneciam em uma região distante, lutando para permanecer na superfície. Muitos gritos da parte delas, pedindo socorro. Um segundo civil entrou na água para auxiliar na tentativa de salvamento, e ambos seguiram em direção ao grupo.

Quando alcançou a primeira das três vítimas, Eduardo estimou que ela estivesse a aproximadamente 350 metros da praia, pois estavam praticamente alinhadas com a parte inicial do Morro do Cristo.

A distância impressionava até mesmo observadores que acompanhavam a situação da faixa de areia. A corrente de retorno as havia levado rapidamente para longe.

As jovens gritavam muito, e o segundo civil, não identificado até o momento, ajudou muito no resgate se aproximando e, com voz de comando, tentando acalmá-las. Encontravam-se exaustas e a primeira tentou agarrar no braço de Eduardo, comportamento comum em situações de afogamento. Após acalmá-la e orientá-la, Eduardo iniciou o trajeto de retorno em meio à correnteza e à água fria.

Enquanto isso, as outras duas adolescentes permaneciam mais ao fundo aguardando auxílio, mas assistidas e acompanhadas pelo segundo civil que participava do resgate.

Bombeiros chegam durante o resgate

A operação já durava mais de 15 minutos quando as sirenes do Corpo de Bombeiros começaram a ser ouvidas na orla.

Pouco tempo depois, um guarda-vidas alcançou a vítima que estava sendo conduzida em direção à praia, com cerca de dois terços do percurso já completado, e forneceu um equipamento de flutuação, aumentando a segurança da etapa final do retorno. Outra guarda-vidas seguiu para apoiar o segundo civil e as demais adolescentes que ainda permaneciam afastadas da costa.

Mesmo com a chegada do reforço especializado, a ocorrência ainda exigiria novos recursos para ser concluída.

Pescadores ajudam a encerrar a operação

A fase final do resgate contou com o apoio de uma embarcação de pescadores da Praia do Cristo, que provavelmente foi chamada pelo Corpo de Bombeiros. Segundo o registro dos fatos, uma embarcação auxiliou na retirada das duas últimas vítimas, do segundo civil e dos guarda-vidas que atuavam mais distantes da praia.

Após cerca de 20 a 25 minutos de operação contínua, todas as cinco pessoas envolvidas na ocorrência haviam sido retiradas da água com vida.

Nenhuma delas precisou ser encaminhada para atendimento hospitalar. Depois de se recuperarem na própria faixa de areia, deixaram o local em segurança.

Um alerta para o litoral durante o inverno

Embora o episódio tenha terminado sem vítimas fatais, a ocorrência chama atenção para um aspecto frequentemente ignorado pelos banhistas: o risco de afogamento não desaparece quando termina o verão.

Correntes de retorno, mudanças repentinas de profundidade e valas continuam presentes durante todo o ano. Em muitos casos, dias de calor fora de época podem criar uma falsa sensação de segurança, levando mais pessoas ao mar justamente quando elas estão menos alertas para os perigos.

O caso ocorrido em Guaratuba também evidencia um fenômeno cada vez mais comum nas cidades litorâneas: eventos tradicionais, férias escolares e condições climáticas favoráveis podem gerar movimento significativo nas praias mesmo fora da temporada oficial. 

E outro ponto fundamental: eventos e a facilidade de chegada à Guaratuba, também por novos turistas, requerem uma nova dinâmica por parte das autoridades na prevenção e patrulhamento das praias. Guaratuba provavelmente não ficará mais vazia fora de temporada, como era antes da construção e liberação da Ponte da Vitória. 

Naquele domingo de julho, a areia lembrava um dia de verão. O mar, porém, continuava sendo um mar de inverno. E a diferença entre essas duas percepções quase terminou em tragédia.

Mais do que uma história de salvamento, o episódio deixa uma lição permanente para moradores e visitantes: o respeito ao mar deve existir em qualquer estação do ano.

Leia também