Correio do Litoral
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O Protocolo

Tarde de quinta-feira, no meinho, ali pela hora que a siesta já terminou e começa a chegar aquela agonia de fazer tudo antes do fim do horário comercial.

Preparada a papelada, me atiro à Paraná, sem exceder os 60km/h e com cinto de segurança – naquela “rápida”, tudo pode acontecer, já dei de frente com duas carretas emparelhadas na curva dupla no Eliane – pra alcançar as repartições ainda com alguma possibilidade de solucionar os impasses do dia….

No cartório, tudo bem, correios, apesar da fila de oito ou nove à minha frente, surpreendentemente saí em menos de vinte minutos, e agora o protocolo. Na Câmara, requerimento simples, uma página, outra de cópia. O que achei seria uma coisa simples, bate-se um carimbo, fazem um chamusco de rubrica, data, pronto. Ledo engano.

Primeiro, a recepção: aguardei, paciente e sorridente, a mocinha acabar a conversa no telefone, enquanto a outra “funcionária” conversa no sofá lateral com duas amigas e um vereador, que, recostado na catraca inoperante de quase doze mil reais, relata suas aventuras recentes; as aspas são apenas para enfatizar a situação de provisoriedade das duas pessoas comissionadas para a função que não realizam.

Pronto, desligada do bate-papo, me consulta, simpática: “você é a Silvia, né? Do ar condicionado? Quer falar com quem?” Explico que não quero falar com ninguém, só fazer um protocolo, já expondo as duas vias de página única do requerimento pronto, assinado e devidamente datado. Bastaria a chancela e me vou rapidinho daqui.

Mas é só com o Edilson, peraí. No ramal, nada de Edilson, informam que deu uma saidinha. Mas o ofício é para o presidente – nova chamada a outro ramal – também não está. Mas a funcionária do gabinete está, pode subir. Passo direto pela catraca decorativa e na ante-sala do gabinete presidencial, cumprimento o chefe local e a atenciosa secretária me informa que o presidente foi a Curitiba. Ok, é direito dele e que faça bom proveito, só vim protocolar um requerimento.

Após uma demorada vista de olhos no texto, novamente: é com o Edilson. Insisto que o requerimento é dirigido ao presidente e vem o esclarecimento: mas protocolo é só com o Edilson, licitação, né?! Mas eu enderecei o requerimento ao presidente da Câmara, ele recebe e depois passa para quem ele achar que deve. Aguardo novamente a consulta repetida, via ramal interno, o Edilson não está. Isso que eu já sabia e até já tinha falado pra ela. E o vice-presidente, pode protocolar isso? Vou ao gabinete do lado, não sem antes comentar com outro vereador, no corredor, da necessidade de instalar um protocolo geral na casa, mecânico, a ser manuseado mais apropriadamente na recepção, premente, até para pôr ordem na correspondência recebida, que deve ter registro de data, hora e ordem de chegada, estando ou não o Edilson no seu local de trabalho.

No gabinete do vice-presidente, a assessora dá outra longa espiada no conteúdo das duas folhas iguais que lhe passei e vaticina: é com o Edilson. Já sei, moça, mas ele não está. Volte amanhã! Nem morta! Não é possível que um simples protocolo me obrigue a 20km de idas e voltas, já bastam os 10 de hoje. Solícita, ela tenta contato telefônico, mas o celular só dá caixa postal, visto que o vice-presidente “saiu pra resolver um problema dele”.

No corredor, encontro o vereador que é Presidente da Comissão de Licitações da Câmara. Como o assunto lhe era pertinente, aguardo alguns instantes até que ele termine de ouvir, agora com mais detalhes, o mesmo relato do mesmo vereador que já tinha encontrado na portaria. E questiono: é possível fazer o protocolo deste documento? É um requerimento relativo a um processo licitatório, deve ser de sua alçada. Vendo do que se tratava, e com disposição para resolver a coisa, acompanho o vereador em busca do… Edilson.

No topo da escada, e muito áspera, a servidora encarregada informa que já me avisara que o Edilson não está na casa, com aquele tom “…já falei antes que ele não está, ela (eu, que estava ali na frente dela, mas de propósito mencionada como se não estivesse) pode voltar amanhã”. O vereador entende que a besteira está prestes a ser feita, e tenta me socorrer, ligando para o Edilson, que, também, não atende o celular. Vendo que a situação ficou muito, muito esquisita, ele ainda dá a preciosa dica: “o chefe de gabinete da presidência pode fazer isso por você, é tarefa dele”.

Agora vi vantagem: o homem estava lá, à disposição, e eu nem me toquei. Voltei, óbvio, rapidamente ao gabinete presidencial e banquei: “O senhor é o chefe de gabinete, não é? Por favor, receba e protocole este documento, fui informada que é sua função!“

Adivinha o que ele respondeu? “Eu sei que é minha função, senhora, só um minuto.”

Mas se ele estava lá desde o primeiro momento, a menos de um metro de mim, quando cheguei com os documentos para o protocolo!!! E não mexeu o dedinho mínimo nem pra nada, me fazendo percorrer corredores e gabinetes à toa.

Sabe aquela gana de voar no pescoço da pessoa, pois é, eu tive, mas controlei.

Com um sorrisinho amarelíssimo na cara, esperei ele arrumar algumas páginas do texto que lia, observando com olhares de soslaio a secretária que fingia não ter ouvido nada e assim, após quase quarenta minutos andando pra lá e pra cá no prédio, consegui o bendito protocolo no meu requerimento.

Não sem antes ter sido informada de que não haveria prazo fixo para a resposta!!! Imagine se eu estava preocupada com isso….

Na saída, só de pirraça, roubei um cafezinho!

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