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Naturalista realiza detalhado levantamento biológico em imóveis

André August Remi de Meijer é um naturalista de nossos tempos. Profundo conhecedor da fauna e da flora do litoral paranaense, é autor e coautor de artigos e livros sobre macrofungos do Paraná.

André de Meijer escreve as conhecidas Cartas da Mata Atlântica, que o Correio do Litoral tem reproduzido com sua autorização.

Diante da pandemia, sua atual fonte de renda são os levantamentos biológicos rápidos (LBRs) que faz em imóveis de todas as dimensões: jardins, bosques, condomínios, chácaras, áreas de camping ou pousadas.

O trabalho consiste em verificar o local, pesquisar e anotar tudo o que encontra. Em seguida, é feito um relatório com os resultados (plantas, cogumelos, aves e borboletas) e recomendações de como proceder diante do que foi encontrado. Todo o processo é feito obedecendo as regras de distanciamento.

O naturalista tem sido contratado para alguns LBRs na Região Metropolitana mas não para o Litoral, onde conhece como ninguém. A vontade dele em pode trabalhar na região está ainda maior agora. “No litoral do Paraná começou a estação das borboletas nectívoras, que ocorre paralelamente à florada do assa-peixe (Vernonanthura beyrichii), cujas flores as borboletas adoram. Creio que estas borboletas, que para se alimentar têm de se expor ao sol, considerem as temperaturas do outono litorânea mais suportáveis que aquelas do verão”, conta André.

“Para mim seria muito importante ser chamado para fazer LBRs também no litoral, principalmente agora, no mês das borboletas!”

Para entrar em contato com André, é preciso escrever para o e-mail a.de.meijer@gmail.com. Se quiser, pode usar o whatsapp do Correio do Litoral (55 41 9873-2668) que faremos a ponte com ele.

Para ter uma ideia de como é o trabalho e seu resultado, reproduzimos uma Carta da Mata Atlântica recente. Leia e entenda o valor ambiental e, quem sabe, a experiência humana que será contratar esse serviço.

Na versão em PDF tem a íntegra, com muitas informações a mais.

Carta 248. O levantamento biológico rápido no verão

André de Meijer, 24/03/2021

Vista de um fragmento da propriedade na iluminação da madrugada (6:34h). A fauna doméstica da propriedade consiste
de 13 cachorros, quatro cavalos (ver foto) e um papagaio. Numa destas linhas de alta tensão vi enfileirado um grupo de 114
exemplares da andorinha-pequena-de-casa. (23/02/2021; município de Balsa Nova; propriedade de E. N.).

O meu último LBR, como sempre tarefa muito agradável, para mim trouxe um aprendizado importante, da forma que vou explicar. Tratou-se de uma linda propriedade na área rural no município de Balsa Nova. Sendo um local de difícil acesso com o transporte público, o proprietário fez a gentileza de vir me buscar na minha moradia, situada ao lado oposto da cidade de Curitiba.

Já que ele não podia vir muito cedo, ofereceu-me um pernoite na propriedade, para que eu pudesse aproveitar o tempo melhor. Foi através deste pernoite que eu pude confirmar o que sempre suspeitei: a qualidade de um LBR restrito ao período diurno de um único dia, é afetada na sua parte ornitológica.

A razão disto é óbvia: a maioria das espécies de aves é registrada através da sua vocalização e não são poucas aquelas que cantam somente no crepúsculo ou à noite. No caso específico desta propriedade em Balsa Nova: registrei um total de 25 espécies de aves, das quais duas escutei somente à noite (corujinha-do-mato e corujinha-listrada) e seis escutei (jacuguaçu, juruva, saracura-do-mato e tovaca-campainha) ou vi (ananaí, pato-do-mato e andorinha-pequena-de-casa) somente no crepúsculo. Além disso, no crepúsculo matutino vi um exemplar da bela borboleta Caligo martia, conhecida como “coruja”, espécie que não tinha visto durante o dia.

Um total de 25 espécies de aves para um dia de trabalho pode parecer baixo, mas há dois motivos para isso:

– A minha vista à média distância encontra-se bastante limitada (tenho glaucoma em ambos os olhos e num dos olhos o processo está muito avançado). Por exemplo, pica-paus, quando estão martelando num local próximo de mim – como lá em Balsa Nova aconteceu várias vezes –, eu não consigo mais descobrir.

E neste trabalho em Balsa Nova a busca tinha de ser rápida, pois ficar parado era impossível: uma nuvem gigantesca de mosquitos me acompanhou o tempo todo.

– quase todas as aves “residentes de verão” já rumaram para o norte. Aliás, lá em Balsa Nova eu tive a sorte de fazer um belo registro da atual atividade migratória: no crepúsculo matutino de ontem vi, enfileiradas numa linha de alta-tensão, um grupo de 114 exemplares da andorinha-pequena-de-casa. O sol da madrugada destacou o contraste branca-azul da sua plumagem: um espetáculo magnífico!

Este levantamento foi razoavelmente bom para plantas vasculares, fraquíssimo para cogumelos (continua estando seco na Região Metropolitana de Curitiba), fraco para mutucas (somente Chrysops varians me atacou) e, graças ao tempo ensolarado, razoavelmente bom para borboletas (20 espécies).

Quem é André de Meijer

André August Remi de Meijer nasceu em 1957, em IJzendijke, Holanda. André é filho de agricultores. Cursou um ano de Agronomia, em Dordrecht (Holanda), e um ano de Manejo Ambiental, em Arnhem (Holanda).

Trabalhou dois anos com agricultura orgânica, antes de migrar para o Brasil, em 1978. Inicialmente, trabalhou durante sete meses numa fazenda de soja em Maracaju (MS). Depois se mudou definitivamente para o Paraná.

Entre os anos de 1979 e 2000 residiu na Reserva Natural Cambuí, situada na várzea do rio Iguaçu, em Curitiba; de 2000 a 2003, morou numa chácara próxima ao povoado de Roça Velha, na área rural de São José dos Pinhais; a partir de abril de 2003 passou a residir na área rural do litoral norte do estado, até o início de 2012 em Antonina, depois em Guaraqueçaba.

Desde 1979, tem trabalhado como naturalista no bioma Mata Atlântica. É autor e coautor de artigos e livros sobre macrofungos do Paraná. A sua coleção de macrofungos paranaenses (mais de 4500 coletas) foi doada ao Herbário do Museu Botânico Municipal, Curitiba (MBM), e a sua coleção de mutucas (Tabanidae) do litoral foi doado à Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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