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Crônica da Festa do Divino: “Entrevero forte!!!!”

entrevero-divino2014Todos os anos me organizo, ou pelo menos tento, para comparecer pelo menos uma vez à Festa do Divino – tenho um carinho muito especial por essa comemoração, que pra mim vai além do seu caráter religioso, como uma celebração da cidade, além das praias e do sol do verão, que remonta às quermesses da infância, apesar das modernidades inevitavelmente incorporadas.

E como não poderia deixar de ser, além daquela batida de perna básica pelas barraquinhas e stands, cada vez mais variados, uma janta no capricho, a cada ano um sabor novo, procuro alternar um pouco além do tradicional peixe e camarão disponíveis em outras épocas – mas quase sempre acabo caindo no fatídico entrevero, que eu considero uma espécie de preciosidade gastronômica – outros definem como aberração gourmet, mas tudo bem!

E não me canso de fazer propaganda dessa mistura bombástica de carnes, temperos e movimentos, sabores e cheiros que só conheci depois que cheguei a Guaratuba, vários anos atrás. Ei, não se espantem, em São Paulo não tem disso – e em Maringá também não tinha, se tem agora não sei!

Pois foi nesta noite de grande Lua, neste sábado, após a acachapante final do jogo da selecinha brasileira esmagada por “Netherland” e seus comparsas, que optamos pelo consolo aquecedor do entrevero, eu e meus queridos amigos, como forma de distrair ou desmanchar o nó que insistia em arrochar o estômago. Após circular com dificuldades pela multidão, escolhemos um canto aparentemente mais propício, ali onde o fluxo se espalha em rumos distintos – um tanto de gentes vai pra feirinha “paraguaia”, outro tanto pra casa, pela saída secundária que evita o tumulto e um restinho de gente se acomoda para encarar, mais tranquilamente, um sanduíche, um crepe ou um inusitado “yakisoba do divino”.

Na mesa livre, ops, um recado pregado – só poderia ser utilizada por clientes da D’Brunus – de jeito, porque a tal lanchonete dispunha além de um afrontoso pernil assado sendo desfiado, a montanha de pedaços de carnes variadas recoberta por cheiro verde, tomates e cebolas que era, enfim, a minha meta. O garçom, solícito a princípio, “podem se acomodar, eu sirvo vocês, o entrevero é R$15, tem frango, porco, linguiça, carne de vaca, uma delícia, vou anotar seu pedido”.

Vamos lá. Pedimos dois, porque estávamos em 4 pessoas e umas fomes médias, com uma porção de batatinhas e as bebidas: 2 refrigerantes em lata e 1 suco de uva.

Em poucos minutos, bebidas na mesa, latas geladas e conteúdo assustadoramente morno. Mas fazer o que, muito movimento, deve ser isso, quem mandou virmos no sábado à noite.

Em poucos minutos seguintes, os dois pratos de entrevero – o pão de leite, enorme, partido ao meio, despejando incontáveis pedaços de carne derramando-se para além dos seus limites frágeis. Confesso que de cara achei a preparação muito rápida, e com pouco tempero, as carnes estavam assim meio branquelas, até comentei que gostava mais passadinhas, mais crocantes e tostadas, e mais misturadas com as ervas verdes, cebolas, nenhum pimentão, nada de que me lembrava…

Bem diz o ditado: a pressa é inimiga da refeição! E o garçom, já distraído com outros fregueses, sequer nos atendeu quando solicitamos mais dois garfos, que aquilo não dá pra comer com a mão e só vieram dois talheres. Resolvemos tocar a coisa assim mesmo, aguardando as batatinhas.

Porém, na segunda ou terceira mordida, minha amiga saltou da cadeira, e com gestos prementes em busca de um guardanapo, tirou da boca um pedaço de carne absolutamente podre!

Ao colocar sobre a mesa aquele bocado de carne de porco, partido pela sua mordida, o cheiro que aquilo exalava, horrível, implantou-se por toda a mesa, causando engulho a todos! Era inacreditável e nos impediu de continuar comendo. Chamamos imediatamente o garçom que, lógico, não veio até a mesa. Meu amigo foi ao balcão da barraca, reclamando atenção ao problema, e nervoso pela displicência e por não ser ouvido, saiu pra longe, que ele tem o estopim meio curto e não queria criar celeuma.

Após uns 10 minutos, vieram as batatinhas, e o garçom finalmente deu atenção à nossa queixa, quando o presenteamos com o fatídico embrulhinho de papel contendo aquele horroroso naco esbranquiçado de podridão! Retornou, então, com a solução: “a proprietária vai fazer outros lanches para vocês.” Imagine se queríamos? Dispensamos tudo, ficamos só com as batatinhas, fininhas sim, mas inocentes na confusão e aparentemente sadias.

Pedimos a conta, e aí a coisa ficou mais interessante: as fritas e as bebidas – R$ 38,00. Dei duas notas de 20 para o rapaz, com as sobrancelhas franzidas, aquilo não me soou bem. Ele trouxe o troco de R$ 2,00. Não me contive, que não sou boa nisso. Fui até o balcão e perguntei para a moça do caixa o preço da porção de batatas fritas; a resposta foi R$ 15,00, o refrigerante R$ 4,00 e o suco R$ 3,00. Ok, então a conta está errada, a não ser que estivessem nos cobrando os lanches que não comemos. Saímos em busca do “nosso” garçom, atarantado, e questionamos o que foi cobrado.

A resposta dele foi surpreendente: R$ 18,00 pelas batatas, R$ 4,50 pelos refris e R$ 4,00 do suco, “porque tem os 10%.” A conta dos “dez por cento” causou-me espécie.

Rindo, comentei com ele sobre os preços anunciados no caixa da barraca – ele “refez” a conta e concluiu que realmente estava incorreta, pediu que aguardássemos, o que fizemos com tranquilidade, e voltou então com o “troco certo” – R$ 6,00.

Tenha a santa paciência – fui ao balcão de novo, e uma constrangida funcionária do caixa disse que não podia discutir o preço cobrado pelos atendentes, que devíamos falar com a “proprietária” da banca, uma senhora que estava cuidando do pernil e nem olhou para o nosso lado.

Enquanto tentávamos ter a atenção da responsável, o garçom, agora visivelmente irritado conosco, tirou do avental seu bloquinho de papel, fez a conta de novo: batatas: “R$ 15 + 10% = R$ 18,00; R$ 4,00 cada latinha e R$3,00 do suco – total: R$ 32,00 .“ Juro, ele fez essa conta na ponta do lápis.

E a gente já não sabia mais o que dizer para aquele homem, sobre aquela matemática doida, eu e minha querida amiga na dúvida – a gente roda a baiana ou deixa pra lá?

Enquanto isso, muito a contragosto, o inteligentíssimo garçom voltou com uma nota de R$ 10,00 e tascou na minha mão. Resolvemos deixar pra lá. Gente de fora, ao que parece, dessa lanchonete, que acha que em Guaratuba tudo pode…. mal crônico, ledo engano. Não recomendo.

Entrevero forte esse, que nem o Divino Espírito Santo explica.

Em tempo: Inconformados, ainda, indo embora, caímos na besteira de perguntar o preço de algumas peças de roupas numa outra banquinha – R$ 30 pilas por uma touquinha de bebê. Nem a pau, Juvenal!

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