Correio do Litoral
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Testando um controlador de mutucas

Caros amigos,

Segue uma carta sobre as mutucas da parte continental do litoral norte do Paraná (fascículo 154 da série “Cartas da Mata Atlântica”). Nela apresento o resultado do meu levantamento deste grupo para o litoral paranaense, baseado na literatura e num esforço pessoal de coleta.
O trabalho ficou tão volumoso que resolvi dividi-lo em duas partes.
Hoje estou lhes encaminhando somente a primeira parte, de 15 páginas, contendo o texto, todas as oito tabelas e Apêndice 1.
A segunda parte, de 49 páginas, contém os outros sete apêndices (Apêndices 2 a 8) e duas fotografias coloridas e será enviada somente às pessoas que me avisem de estar interessada em recebê-la.(a)
Encontrei 27 espécies de mutucas no litoral norte do Paraná, num total de 234 dias de coleta, distribuídos em um período de 19 meses. Foram capturados mais de três mil exemplares de mutucas, numa amostra total de mais de doze mil insetos. Três espécies contam como primeiros registros para o Paraná e outras duas são primeiros registros para o litoral do estado. O total corresponde à metade das espécies de mutucas registradas para todo litoral paranaense (são 53) e à quase um terço das espécies conhecidas do Paraná inteiro (são 78).
Esta primeira parte contém uma chave de identificação para as espécies de mutucas pessoalmente encontradas no litoral norte; espero que esta ferramenta possa ser útil a aqueles que residem na região, ou que visitem o litoral na estação quente e, principalmente, que seja utilizada também em aulas de ciências nas escolas do litoral.
Aproveitem este material na nova estação das mutucas, que está começando!
André

Guaraqueçaba, 18 de setembro de 2014

(a) As pessoas que me ajudaram nesta pesquisa e os especialistas brasileiros em mutucas (também alguns estrangeiros) estão automaticamente recebendo a segunda parte desta carta.

Carta 154. Testando um controlador de mutucas

Quando, em 11 de dezembro de 2009, emiti a circular “Os olhos divinos da Luzia”, vários leitores reagiram me contando do seu sofrimento pessoal com as mutucas do litoral paranaense. Julgando-me especialista, solicitaram uma orientação sobre como enfrentar estas „pestinhas‟ aladas. Respondi que a melhor coisa a fazer seria evitar o litoral do início de novembro à metade de dezembro, ou, para quem ali resida usar naquele período um chapéu de aba larga e roupas brancas. Contra Chrysops varians, aquela mutuca pequena que ataca o alto da cabeça e tanto incomoda na área rural, é possível se proteger andando abaixo de uma sombrinha branca, pois essa espécie não gosta de perder o contato visual com o céu: quando vai abaixo da sombrinha e percebe que perdeu a possibilidade de fugir em direção ao sol, logo procura escapar lateralmente. Em comparação com a sombrinha branca, um guarda-chuva de lona preta terá a desvantagem de atrair mutucas pela cor e pelo calor emitido, já que uma superfície negra esquenta no sol.(a)

É claro que este método de proteção somente é aplicável pelo andarilho, pois um agricultor não tem como andar de sombrinha, pois precisa manter as mãos livres para trabalhar. Além disso, o método serve apenas para Chrysops. Para as outras mutucas só lhe resta rezar que a primavera passe rápido.

Como sabem, são somente as mutucas fêmeas que sugam o sangue de mamíferos como nós. Essa alimentação é usada para o desenvolvimento dos ovos, mas aparentemente não é necessária para o primeiro lote de ovos. Os machos se alimentam de néctar e outros líquidos.

A circular supracitada teve uma consequência positiva para mim: o jornalista Gustavo Aquino, de Guaratuba, PR, publicou a carta no seu jornal eletrônico “correiodolitoral.com” e a partir daí ele começou a publicar naquele jornal também as minhas cartas posteriores.

Inicialmente, tive a impressão de que o número dos meus leitores não aumentava pela publicação no Correio do Litoral, pois as pessoas dando retorno às cartas já integravam a minha própria lista de destinatários. Mas, em 26 de setembro de 2011 um desconhecido, Manuel, residente de um lugar remoto (Holanda), comunicou-me de que tinha conseguido o meu endereço eletrônico pelo Correio do Litoral. Ele me explicou que dominava razoavelmente bem o português por ter vivido toda a sua adolescência no Brasil e o pai espanhol, que levou a família embora do país em 1964.

Manuel me contou que era revendedor de uma armadilha para mutucas, fabricada na Holanda e exportada com sucesso para muitos países no norte da Europa e da Ásia. Buscando expandir o mercado para o território brasileiro, ele tinha feito uma busca eletrônica usando a palavra, “mutuca‟ e assim encontrado a minha circular.

Manuel acabou me enviando pelo correio um exemplar desta armadilha, para testar e avaliar no clima subtropical-tropical. Na carta de hoje apresento o resultado da minha experiência com o aparelho.

A armadilha consiste de uma bola preta de borracha pendurada abaixo de um funil de plástico transparente verde. Com tempo ensolarado, a bola esquenta e com algum vento o conjunto balança levemente. A combinação de calor e movimento atrai mutucas fêmeas, que, ao descobrir que na bola não há sangue, levantam voo, assim entrando no funil. A saída no topo do funil é coberta por um recipiente transparente de ABS,(b) cilíndrico, de 15 cm de diâmetro e 20 cm de altura. A foto anexa a esta carta mostra o aparelho montado na margem da pastagem próximo a minha casa. A bola preta tem 60 cm de largura e o funil verde tem diâmetro de 100 cm na base.
Enfatizo que este tipo de armadilha não é nenhuma novidade: o modelo é conhecido como „canopy‟ e foi desenvolvido por um entomólogo há quase meio século (Catts 1970).

Testei o aparelho em dois lugares, sendo as minhas respectivas moradias, ambas situadas no litoral norte do Paraná.

Terreno A = minha residência anterior, em Lageado, município de Antonina:

Fica na altura do km 9,5 da rodovia PR-405. Trata-se de um terreno semiaberto dentro de uma floresta nativa no primeiro estágio de desenvolvimento. A armadilha foi instalada próximo à residência e a 2 m de distância de uma piscina artificial. Animais domésticos estavam ausentes dentro de um raio de 300 m em volta da armadilha.

Localização exata: 25˚19’05,70” Sul e 48˚39’35,32” Oeste, a 40 m acima do nível do mar, no topo de um pequeno morro.

Terreno B = minha residência atual, em Tagaçaba Porto da Linha (abreviado nesta carta como Tagaçaba), município de Guaraqueçaba:

Fica na altura do km 36,2 da rodovia PR-405. Trata-se de terreno semiaberto, próximo a uma pastagem e a uma floresta nativa secundária. A armadilha foi instalada a 1 m de distância da pastagem e a 10 m de uma cobertura aberta para o gado. Havia os seguintes animais domésticos: cavalos e gado (ao longo do período de pesquisa o número variava entre um e três cavalos e dois a quatro cabeças de gado), confinados à pastagem; cachorros (quatro) e galináceos (número variando entre seis e 11 ao longo do período), andando soltos pelo terreno. De outubro de 2013 a fevereiro de 2014 havia também leitões (dois a três), confinados ao chiqueiro, mas frequentemente escapando e percorrendo o terreno todo.(c)

Localização exata: 25˚13‟24,75” Sul e 48˚27‟21,00” Oeste, a 4 m acima do nível do mar, na planície.

Terreno A fica a uma distância de 23 km do terreno B, em direção sudoeste.

No terreno A, o aparelho foi instalado em 4 de novembro de 2012 e foi recolhido no dia 27 do mês seguinte. No terreno B, o aparelho foi instalado em 12 de março de 2013 e permaneceu em uso até a data da finalização desta carta (18 de setembro de 2014). No terreno A, o mesmo foi testado tanto no período diurno quanto à noite, enquanto no terreno B foi testado somente durante o dia.

Nos momentos em que não houve teste, o recipiente coletor era retirado, para que os insetos pudessem passar livremente.

Para a identificação dos insetos capturados foi necessário matá-los. Para isso, o recipiente coletor contendo os insetos capturados foi colocado no freezer da geladeira e deixado ali por no mínimo uma meia hora. Uma lupa de mão com 15X de aumento foi usada para o exame das mutucas e outros insetos grandes. Os insetos menores foram examinados usando um microscópio com 100X de aumento (Ernst Leitz Wetzlar ®). A determinação das mutucas foi feito em termos de gênero usando Krolow et al. 2007 e Turcatel et al. 2007 e Coscarón & Papavero 1993 para gênero e subgênero.

Para a determinação das mutucas em termos de espécie, usei os seguintes trabalhos: Barretto 1946, 1947, 1948a e 1948b, Bassi 1995, Barros & Gorayeb 1996, Benchimol & Sá 2005,(d) Burger 2002, Coscarón 1968, 1975 e 2001, Coscarón & Fairchild 1976, Coscarón & Iide 2003, Fairchild & Philip 1960, Henriques & Rafael 1993, Krolow & Henriques 2010, Philip 1955, Turcatel et al. 2010, Wilkerson 1981 e Wilkerson & Fairchild 1982.

A determinação dos outros insetos foi feita em termos de ordem e família, usando Chinery 1975 e Rafael et al. 2012. A mosca-doméstica (Musca domestica) foi identificada usando Carvalho et al. 2002. Eu consegui identificar todas as mutucas, enquanto alguns outros dípteros e muitos himenópteros, hemípteros e coleópteros foram identificados ou conferidos por especialistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Curitiba. Os nomes destas especialistas estão na seção “Agradecimentos”, no fim desta carta.

Os resultados gerais das capturas são apresentados nos Apêndices 2 e 3 e os resultados detalhados na Tabela 1, para o período noturno, e nos Apêndice 4, 5 e 6, para o período diurno.

Contato com o autor: a.de.meijer@gmail.com

Veja a carta na íntegra com as tabelas, apêndices e referências.

Clique aqui: André Carta Mutucas -Letter horseflies – Texto+Tabelas

 

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