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Carta 156. Flagrado!

andre-de-meijer-colunaNa quarta-feira (15 de abril de 2015) estava trabalhando em casa quando, às duas e meio da tarde, uma das galinhas da chácara começou a gritar. Inicialmente pensei que o galo estava fazendo avanços nela.

Mas logo desconfiei: nos gritos soava um verdadeiro desespero! Então corri à varanda e acabei testemunhando algo muito impressionante. Um gavião-carijó (Rupornis magnirostris) estava no chão, com cauda e asas abertas, jogando-se em cima da galinha em fuga.

Para espantar o gavião, gritei e logo os dois desapareceram atrás de um arbusto denso. Corri ao local e quando cheguei ambas as aves tinham evaporado. O que restou foi um grande silêncio. Entendi que o gavião tinha se esquivado entre as árvores e a galinha certamente estava abaixo do arbusto, bem escondida, para se recuperar do susto. Eu voltei para dentro da casa.

Duas horas depois (às 16h35) a galinha ressurgiu, gritando, de forma incessante, permanecendo em pé no exato local onde ela tinha sido atacada, girando lentamente para que os seus gritos pudessem ser levados pelos quatro ventos.

A galinha da qual estou falando estava com dois pintos. Mas, agora ela estava aparentemente sozinha. Fui verificar e na minha aproximação ela se sentou, escondendo algo. Escutei o chilrear de um pinto debaixo da sua asa. Quando me afastei, ela se ergueu e então vi que apenas um dos dois pintos tinha se salvado.

Na semana anterior a esta triste acontecimento tinha notado que esta galinha é uma mãe extremamente zelosa: nunca se separou dos filhos por mais de um metro. Evidentemente, o gavião tinha percebido a mesma coisa e acabou perdendo a paciência. Assim tomou essa atitude extrema: avançar diretamente na mãe, para que os filhotes se separassem dela na fuga.

A galinha continuou com essa gritaria por mais de uma hora e meio, permanecendo no exato local da tragédia. Será que foi para orientar o filho ‘perdido’ no seu regresso ao lugar? Ou foi por não conseguir se conformar com essa perda? O ‘choro’ ininterrupto cessou somente às 18h, quando ela foi se recolher para a noite, abaixo de um arbusto, já que o pinto é pequeno demais para subir no poleiro do galinheiro. As outras onze galinhas da chácara e o galo se recolheram no galinheiro logo depois (às 18h10).

Resido aqui desde março de 2013 e neste período o sucesso reprodutivo das galinhas da chácara tem sido mínimo. Na minha chegada havia seis galinhas, três galos, um frango e um pinto. Estes galos e várias das galinhas já se foram, mas o pinto de então é o galo de hoje. Aquele pinto forma exceção no sentido de ter conseguido chegar à idade adulta. Pois os poucos outros pintos surgidos em 2013 e 2014 foram todos devorados por algum predador. No mesmo período, ninhadas completas de ovos chocados desapareceram misteriosamente.

Na chácara vivem alguns exemplares do teiú (Salvator merianae) e o local é visitado constantemente por um bando barulhento da gralha-azul (Cyanocorax caeruleus). Sempre suspeitei que estas espécies pudessem ser os principais predadores de ovos e pintos na chácara.

Tudo bem: sei que o gavião-carijó sobrevoa a minha casa todos os dias. Mas, ao circular lá nas alturas, surfando nas ondas do ar quente e emitindo o seu canto simpático e prazeroso, ele tem conseguido me enganar perfeitamente. Só agora descobri que ele está bem ligado no que acontece aqui no chão.

No início deste ano (2015), pela primeira vez uma galinha da chácara conseguiu a façanha de criar uma ninhada completa até o fim: todos os seis filhotes sobreviveram e hoje já são grandes demais para serem apanhados pelos predadores mencionados acima, todos de tamanho médio.

Os predadores maiores, como cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) e vários felinos, não se aproximam da chácara, pois os nossos cachorros patrulham o terreno com eficiência. Assim, os galináceos adultos podem viver aqui uma vida relativamente segura.

André de Meijer, 16 de abril de 2015

 

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