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Carta 159. Tratando (d)os imigrantes: algumas leituras

Esta carta é uma homenagem póstuma a Johanna Meibohm van Kaick, nascido no leste da África há exatamente 106 anos: em 28 de junho de 1909.

Em 1942, veio a  ordem da Divisão de Polícia Política e Social (DPS) para, num prazo de 24 horas, os imigrantes japoneses, alemães e italianos estarem com as malas prontas para serem transportados ao interior do Estado, já que o litoral tinha sido declarado área de segurança nacional. No Paraná, essa “evacuação” foi executada pelas delegacias regionais de Antonina e Paranaguá.

 

A maioria dos curitibanos da minha geração deve se lembrar de Cláudio Seto, um talentoso artista plástico, que faleceu prematuramente à idade de 64 anos, em 2008. Através da leitura do seguinte livro descobri que ele também foi um excelente pesquisador:

Seto, C. & M.H. Uyeda. 2011. Ayumi (caminhos percorridos): memorial da imigração japonesa: Curitiba e litoral do Paraná, Ed. 2. Imprensa Oficial do Paraná, Curitiba. 353 pp.

Esta obra, sobre a imigração japonesa no leste do Paraná, é baseada numa vasta pesquisa de literatura e de arquivos (fontes listadas nas suas p. 331 e 335) e em um grande número de entrevistas, executadas por Cláudio ao longo do período de 1994 a 1998 (datas das entrevistas fornecidas nas p. 333-334). A obra trata detalhadamente a primeira metade do Século XX (pp. 217-312). O período a partir de 1950 é contado de forma resumida (pp. 313-330), dando ênfase na “vida associativa”.

Nas páginas 58 e 59 do livro foi reproduzido um editorial do jornal curitibano “O Comércio” de 9 de dezembro de 1908. Já que eu sou um imigrante proveniente da Holanda, deste longo artigo de jornal, o trecho inicial chamou muito a minha atenção:

“IMMIGRAÇÃO
O Paraná, em coisas de immigração tem sido o mais feliz e o mais distinguido pelos poderes da nação. A maior e a melhor corrente immigratória tem sido, nestes últimos tempos, dirigida ao nosso Estado.
É bem sabido que as colonizações austríacas, polaca, suissa, allemã, e a italiana são os que mais facilmente se desenvolvem e prosperam, assimilando-se aos nossos costumes.
O holandez já é um povo um tanto differente. Trabalhador infatigável tem, entretanto, tendências para a desobediência, um ardor belicoso oriundo da sua educação e dos costumes do seu paiz. Terra de leis libertinas, a Hollanda, os seus filhos, quando são obrigadas à obedienca de leis severas, só a muito custo se submettem.

A immigração japoneza é um perigo para o povo que a aceita. Um jornal carioca assim della nos diz: (…)”.

Ao ler este fragmento, lembrei-me de que exatamente naquele ano de 1908 foi encaminhado ao Estado do Paraná o primeiro grupo de imigrantes holandeses, onde foram enviados pelo Serviço de Colonização para o lugar mais afastado da época: Gonçalves Junior, no então recém-criado município de Irati.(a) De Irati em direção oeste, o Paraná só tinha floresta fechada,(b) com exceção da região campestre de Guarapuava.

Naquele lugar isolado e inóspito, os holandeses, principalmente mulheres e crianças, vieram a morrer em grande número, de febre tifoide, febre amarela, malária e também pela fome, pois as primeiras colheitas se perderam após de uma infestação por gafanhotos e pelas visitas feitas às roças por bandos de catetos e queixadas. Então ocorreu a florada da taquara, anunciando uma ratada para o ano seguinte. Tudo isso fez os holandeses desistirem: já em 1910 a maioria deles voltou à terra natal, ajudado pelo governo holandês (Kiewiet & Kiewiet 2011, Lamb 2011). Os poucos que permaneceram, em 1911 se mudaram para a região de Carambeí, nos Campos Gerais, onde acabaram se dando melhor.

Os japoneses que chegaram ao Brasil tiveram como obrigação contratual de trabalhar os primeiros dois anos em fazendas de café do Sudeste. Lá foram mantidos em regime de semiescravidão e muitos deles se revoltaram, ou escaparam. Três desses “fugitivos” passaram por Curitiba cinco meses após a publicação do artigo de jornal supracitado. Foram os primeiros japoneses vistos na cidade e, em parte devido ao artigo terrível, não devem ter recebido uma boa acolhida na capital paranaense.

Apesar das más experiências nas fazendas de café, os imigrantes japoneses continuaram chegando, mas a maioria evitou o Paraná e os outros estados do Sul do Brasil, onde experimentavam preconceito racial. No Paraná, somente em 1916 houve uma primeira mudança de postura: o novo prefeito de Antonina resolveu atrair japoneses ao município para desenvolver a rizicultura. Esta é a razão de em Antonina, na região de Cacatu, ter surgido a primeira colônia japonesa em território paranaense. Dois anos depois, em 1918, chegaram também japoneses numa outra localidade de Antonina: a Fazenda Santa Olímpia, não muito distante de Cacatu.

Naquela época, “a Fazenda Santa Olímpia consistia de uma sede, uma rua com casas de colonos em ambos os lados, um posto de puericultura e uma escola. A área da fazenda tinha luz elétrica. O acesso era feito em barcos pelos rios Limoeiro e Cachoeira.” (Seto & Uyeda 2011, p. 102).

No início de 2013, eu mesmo tive o privilégio de poder morar, por dois meses, na atual sede da Fazenda Santa Olímpia (a área encontra-se inserida na Reserva Natural Rio Cachoeira, da ONG ambientalista SPVS). A atual sede fica no km 20,6 da PR-340, à margem direita da rodovia, bem no local onde originalmente havia o imponente portão de entrada da fazenda, mostrado na foto de p. 101 em Seto & Uyeda (2011) e do qual hoje não há mais vestígios.

Na época da chegada dos japoneses, a sede da fazenda estava situada 1,5 km a leste do atual sede. Procurei visitar aquele local, para ver se há ruínas, mas não consegui chagar até lá, pois hoje a antiga estradinha de acesso está submersa num banhado extenso de braquiária.(c) Um residente idoso de Mergulhão, a comunidade mais próxima, contou-me que ele muito bem se lembra da estradinha hoje desaparecida.

A parte do livro de Seto & Uyeda 2011 que mais me impressionou é aquela relatando os horríveis anos da Segunda Guerra Mundial e os primeiros anos pós-guerra.(d) A partir do início de 1942, os imigrantes súditos dos países do Eixo (Japão, Alemanha e Itália) começaram a ter as suas roças depredadas, as hortaliças nos quintais roubadas e as suas casas comerciais e armazéns saqueados por populares.

Veio uma proibição para esses imigrantes falarem a sua língua nativa, se reunirem em grupos maiores que cinco, de possuírem livros na língua nativa,(e) e de ter um rádio.

Para a parte dos imigrantes residentes do litoral paranaense e não naturalizados como brasileiro, no fim de setembro de 1942 veio a repentina ordem da Divisão de Polícia Política e Social (DPS) para, num prazo de 24 horas, estarem prontas para serem transportados ao interior do Estado, já que o litoral tinha sido declarado área de segurança nacional.

No Paraná, essa “evacuação” foi executada pelas delegacias regionais de Antonina e Paranaguá. No município de Antonina, foram evacuadas 84 pessoas.(f) No município de Guaraqueçaba havia alguns descendentes de italianos, que podiam ficar, já que eram brasileiros. Não havia imigrantes italianos, nem imigrantes japoneses no município.

Mas havia um bom número de imigrantes alemães e os seus descendentes, todos morando na “Zona Alemã” da Colônia Serra Negra, situada dentro da Bacia do rio Serra Negra, ao longo dos rios Açungui,(g) Serra Negra, Bananal e Guaracui.(h) Destas pessoas, aquelas não naturalizadas como brasileiras foram todos transportados, pela polícia, de barco a Paranaguá, onde foram colocadas no trem a Curitiba (veja também Seito & Uyeda 2011, p. 240-241). Chegando à estação ferroviária de Curitiba, foram liberados, sem receber ajuda alguma do governo: cada família tinha de se virar. Foi bom a primavera ter começado: teria sido pior se estas pessoas, acostumadas às temperaturas amenas do litoral, tivessem chegado em Curitiba no meio do inverno.

Todos esses alemães, italianos e japoneses acabaram tendo uma vida muito sofrida nos últimos anos da guerra (Pereira 2010) e aqueles que permanecerem na capital, ao se arriscarem na rua eram insultados de “quinta-coluna”,(j) principalmente os japoneses, já que a sua etnia era facilmente reconhecível.

Leia a íntegra da carta 159 aqui (formato PDF): Carta159- Imigrantes

 

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