Correio do Litoral
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Opinião: Educação Política no Brasil e em Guaratuba

Professora usou Tribuna Livre da Câmara

Veranice Fátima Massoni*

Sou Educadora e Economista.

Como economista, me é extremamente difícil assistir resultados ruins, sem falar ou fazer nada. O conhecimento acadêmico nos fornece um campo extra de visão para além da mecânica econômica diária.

E isso nos torna inquietos, inconformados.

Posso dizer hoje, 22 anos após minha chegada a Guaratuba, que sou filha adotiva desta terra. Que Guaratuba foi mãe generosa, que me abraçou, me conquistou e em seus braços resolvi constituir família, a qual se concretizou.

Meus filhos nasceram aqui, na antiga Santa Casa, pelas mão da saudosa Drª Elizabete, com apoio do Dr. Hidelberto, Dr. Acemar e enfermeira Aleise.

Nós “os forasteiros”, por muitas vezes somos condenados pelos “nativos” como meus filhos, quando criticamos a cidade.

E então sofremos no contraditório.

Porém, por mais duro que seja, quando aqueles que amamos erram, temos a missão de levantar a critica, de corrigi-los, para que acertem no próximo passo.

Assim, entendo que, exatamente por amar esta terra, devemos apontar os erros nela praticados, para que possamos corrigi-los, melhorando assim a vida de seus cidadãos.

Não devemos passar a “mão na cabeça”, fechar os olhos, fazer de conta que tudo está bem, quando não está, sermos passivos com os erros.

Devemos ter interesse, criticar, trabalhar pela terra que amamos, e isso nada mais é do que fazer política.

E todo lugar em que sua população tem interesse político, prospera.

Infelizmente a população, de modo geral, não consegue comparar o que ocorre com a dinâmica política, jurídica, social e econômica do lugar onde vive.

Isso por falta de conhecimento político. E os meios de comunicação que levam informações mais facilmente às pessoas só contribuem para a precarização dos sistemas de referência e esclarecimento político.

Como educadora percebo que é chegada a hora de nos reinventarmos.

Temos que reconhecer que a população está desprovida de educação política, porque tanto os regimes autoritários de toda nossa história, quanto a social democracia de 1984 a 2016 não souberam operacionalizar a educação neste país.

O que a população não consegue ver é que o desmantelamento da política interessa a cúpula dos políticos. É difícil explicar para a população por exemplo o “sufrágio universal pela classe de renda” que toma conta de nossas eleições.

Que existe uma desordem em nosso sistema político, que caso não seja combatido com respeito ao direito uns dos outros, não vou nem dizer às leis, porque a desordem já atingiu até o judiciário. Essa desordem traz consigo falta de responsabilidade em todos os níveis, e lança aos cidadãos uma falta de segurança, e os faz não acreditar no sistema político escolhido.

E as coisas não irão mudar se não adquirirmos o conhecimento político para votar aos 16 ou aos 70 anos. Enquanto continuarmos elegendo as minorias poderosas, ricas materialmente, abastadas financeiramente, mas pobres de nobreza, cujo olhar é apenas para o seu interesse e de sua “equipe” em detrimento do interesse social, caminharemos para o caos. Com 16 anos nossos jovens são considerados “maduros” para votar, porém há falta de educação política inclusive naqueles que têm graduação, porque nosso currículo não tem nada de ciência política. Não ocorre o estudo, não ocorre o treino, não ocorre a prática.

Andamos no caminho inverso do crescimento, em vez de instituirmos o conhecimento político na escola, tiramos o pouco que tem criando leis para calar, como a da escola sem partido, que se ancora no enfoque religioso para justificar a mordaça e obter o apoio popular.

De acordo com o economista D”Agostini, para votar é necessário aprender a ler sobre política, formas de governo, modos de produção, fazer exercícios em sala de aula, treinar e por fim praticar nas urnas e até nas ruas com pleitos e solicitações. Entender o que é partido político, quais as dinâmicas que os compõe, se é de esquerda, direita, centro-esquerda, centro-direita. Entender políticas econômicas, se capitalista, socialista, comunista, liberal, neoliberal. E assim essa importante vertente do pensamento, o entendimento de política e economia, deveriam ser incorporados a todos os níveis de educação: fundamental, médio e superior. Todos os votantes deveriam ter estes ensinamentos.”

Assim como o estado universalizou o voto, tem por obrigação ética a universalizar o ensino politico no sistema educacional de forma imparcial, laica e sem preconceitos.

A educação é a ferramenta para o voto consciente; é a vertente para a exterminação da “doação” do voto pelo “achismo” de boa fé do candidato, do assédio moral ao eleitor leigo.

Se queremos um pais diferente, temos que investir na “educação”. Esse investimento não se trata apenas de condições físicas, bons prédios, condições materiais, mas de bom capital humano, investimento na formação do educador. Segundo Pasi Sahlberg diretor do Centro de estudos do Ministério da Educação Finlandês “ professores são profissionais de alto nível, como médicos e juízes. Eles precisam de uma sólida formação teórica e treinamento prático. Em todos os sistemas educacionais de sucesso, professores devem estar no mesmo patamar de outras profissões com o mesmo nível de formação no mercado de trabalho. Também é importante que professores tenham um plano de carreira, com perspectivas de crescimento e desenvolvimento.”

A Finlândia era um país que amargava índices de desemprego e recessão terrível nos anos 70, após drásticas transformações, políticas-sociais, cujo carro chefe foi uma reforma no sistema de ensino educacional, possui hoje uma economia de mercado altamente industrializada, sistema político ético, produção per capita maior que o Reino Unido, França, Alemanha e Itália, e elevado padrão de vida. Coreia do Sul e China também são países que apostaram na educação para a mudança social e os resultados são notórios.

“Infeliz é o ente político que opta fazer economia em seu município, estado ou nação cortando custos na educação.”

Está atitude endossa dois eixos:

1- A falta de conhecimento ou

2- A má fé, porque afinal, povo despolitizado é povo manipulado.

Proponho a esta casa de leis a continuidade do projeto da Professora Paulina, porém agora indo pra dentro da escola.

Convido os Senhores vereadores e vereadoras a pensar, elaborar e legalizar a extensão do projeto Escola no Legislativo, agora adentrando os espaços escolares, fazendo parte do currículo.

Que tal sermos pioneiros em algo positivo, bom para o nosso povo de fato, que tal treinarmos os caminhos eleitorais num ano político dentro das escolas municipais?

Unirmos o útil e agradável ao ético. Gostaria muito poder dizer com orgulho: os políticos de minha linda e amada Guaratuba realmente deram o primeiro passo para a mudança!

* Veranice Fátima Massoni é economista, formada pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Matemática pelo Centro Federal Tecnológico de Ponta Grossa (Cefet). Pós graduada em Metodologia de Ensino pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá (Fafipar). Diretora auxiliar do C.E. Pref. Joaquim da Silva Mafra, em Guaratuba.

Texto do pronunciamento da professora Veranice Massoni na Tribuna Livre da Câmara, no dia 5 de março.

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