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UFPR demonstra que Litoral não tem estrutura para pandemia

Uma análise baseada em projeções matemáticas realizadas pela Imperial College London indica que, aproximadamente, 30 mil pessoas serão infectadas pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) em todo o litoral do estado do Paraná.

Destas, 19%, o correspondente a 5.643, precisarão de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e ventiladores mecânicos. Formado por sete municípios, o litoral dispõe de apenas 21 leitos de UTI, situados em Paranaguá, que devem atender toda a região.

O estudo feito pelo Programa Educação pelo Trabalho em Saúde (PET-Saúde Litoral) partiu do princípio de que 10% da população litorânea seria infectada, observando um cenário real em que não existe uma supressão generalizada da circulação de pessoas. A análise britânica para o Brasil, que fundamentou a investigação, aponta cinco cenários diferentes, de acordo com as medidas adotadas pelo país. No pior deles, sem nenhuma mitigação na circulação de pessoas, 88% da população brasileira seria contaminada.

Os outros panoramas comparam o distanciamento social em diferentes níveis. Com distanciamento social de toda a população, 57% seria infectada (cenário 2). Havendo distanciamento social e reforço do isolamento dos idosos, 55% seria contaminada (cenário 3). Com a supressão tardia da circulação de pessoas, 23% se infectariam (cenário 4), enquanto que a supressão precoce da circulação resultaria em apenas 5% de contaminados (cenário 5).

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A metodologia adotada para o litoral do Paraná foi um meio termo entre os cenários de supressão tardia e supressão precoce. “Essa escolha otimista, de 10%, nos descolou do cenário 3, o chamado isolamento vertical que vem sendo defendido pelo presidente da república. Porém, não nos localizamos exatamente no cenário 4, nem no 5, pois se sairmos às ruas, observamos que a população ainda resiste às medidas mais restritivas de isolamento, embora haja importante redução de circulação em espaços públicos”, explica o professor de Saúde Coletiva da UFPR e coordenador do PET-Saúde, Marcos Signorelli.

Cabe ressaltar que o estudo foi realizado há cerca de duas semanas. Recentemente tem se obervado uma tendência de afrouxamento das medidas restritivas, com reabertura de comércios e menor aderência da população ao distanciamento social. Nesse casso, o cenário 3, em que 55% da população poderia ser acometida, está ficando cada vez mais próximo, o que indica piora na proporção da demanda por leitos e dos leitos disponíveis.

Tendo como base a quantidade populacional informada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 10% de infectados no litoral paranaense corresponderia a 29.704 pessoas, das quais 5.643 precisariam de leitos de UTI, pois seriam casos mais graves. A região é formada por sete municípios: Paranaguá, Guaratuba, Antonina, Matinhos, Guaraqueçaba, Morretes e Pontal do Paraná. Destes, apenas o primeiro conta com leitos de UTI, são os 21 pertencentes ao Hospital Regional do Litoral e que devem atender toda a microrregião.

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Carla Straub, professora de Saúde Coletiva e integrante do PET, esclarece que o Sistema único de Saúde (SUS) é organizado em regiões. “Se pensarmos na lógica do sistema, a menor unidade é a região. A maioria dos municípios da região litorânea é de baixo e médio porte e não compota a estrutura necessária para abrigar uma UTI, que exige equipamentos, equipes treinadas, entre outros aspectos. A distribuição dos leitos segue a lógica da economia de escala, por isso Paranaguá, como maior cidade do litoral, concentra a chamada atenção especializada, que inclui os leitos de UTI”. O cuidado intensivo é bastante específico e requer uma estrutura física e de equipe técnica adequada como médicos intensivistas, médicos infectologistas, enfermeiros especializados, bioquímicos para realização de certos exames, entre outros.

“Essas estimativas são importantes para compreendermos a nossa capacidade instalada. A capacidade do SUS é condizente com um padrão de doenças e agravos habituais. Mesmo assim, há estudos que indicam uma baixa proporção de leitos para habitantes quando comparado a outros países. Além disso, temos uma desproporção entre leitos públicos e privados”, afirma a professora. Para o estudo, foram contabilizados os leitos públicos e privados existentes no litoral do estado.

“Chegamos à conclusão de que os leitos de UTI no litoral paranaense são distribuídos de uma maneira muito desigual. Se uma pessoa de Guaratuba, por exemplo, tem uma complicação, seja pela Covid-19 ou o por outro problema, precisa se deslocar até Paranaguá para ser atendida, o que é impraticável em um caso de vida ou morte. No caso específico da Covid-19, estima-se que muitas pessoas precisarão de suporte de terapia intensiva e essa relação entre população e leitos de UTI não dá conta, mesmo no melhor cenário”, afirma Signorelli.

Até a tarde deste domingo (12), havia oito casos confirmados de Covid-19 no litoral, sendo dois em Matinhos e seis em Paranaguá, dos quais dois resultaram em óbito.

Para conferir o estudo em relação às outras regiões acesse o texto completo no site da UFPR

Fonte: UFPR

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