Correio do Litoral
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Com quantos sonhos se produz um alimento?

Cestas agroecológicas e solidariedade na crise, olhares complementares

Fotos: Maria Wanda de Alencar

Maria Wanda de Alencar *

Com quantos sonhos de produz um alimento? Esta pergunta nos permeia, não para obter respostas prontas, mas como um chamado à reflexão da expressão do alimento muito mais do que um ato de suprir as necessidades nutricionais do corpo físico, mas como elo de identidade cultural entre os povos, revelando o alimento como aquilo que estabelece relações centrais humanas por meio de identidades socioculturais e geográficas resgatadas e revalorizadas por meio das muitas gerações, compondo as diversas dimensões dos elementos fisiológicos, psicológicos, sensoriais, sociais e simbólicos é o que nos faz sujeitos da construção de outras agriculturas.

A proposta de outras dinâmicas de comercialização, leva em consideração o processo cada vez mais intensivo de urbanização e globalização, contribuindo para a dinâmica das escolhas por alimentos mais condizentes com a pressa deste novo estilo de vida, aliado ao modelo de produção em massa, acentuando um distanciamento entre produtor e consumidor, em que o alimento é transformado em simples mercadoria a ser vendido no mercado, deixando de representar a relação de afeto que antes permeavam as refeições nas trocas familiares e entre amigos, cedendo lugar a um procedimento da atividade biológica, ou para suprir outras carências psicossociais, na qual a indústria alimentar o insere num sistema em que o ato de comer está submetido aos interesses do mercado.

É da necessidade da aproximação cada vez maior entre produtor e consumidor, em que ambos têm acesso ao mercado local ou ciclos curtos de comercialização, da compreensão do alimento como forma sagrada de comunicação com o mundo e a maneira como vivemos. É dessa interação que o projeto das cestas agroecológicas do litoral – Matinhos e Guaratuba – materializa-se, onde consumidores podem escolher seus produtos por meio de dois grupos de whatsap e posteriormente pegá-los – em Matinhos na UFPR, em Guaratuba no Colégio Estadual Prefeito Joaquim da Silva Mafra, neste dia, além do acesso às cestas, também há uma feirinha com mais alimentos (com restrição por conta da pandemia, portanto, a orientação é que comprem anteriormente), além da exposição de artesanatos. A próxima lista será divulgada neste final de semana e a entrega das cestas no final de semana seguinte, sexta-feira (19/02), Matinhos, a partir das 17h e sábado (20/02), a partir das 9h.

No litoral o projeto tem nome e sobrenome, tem história, tem vida e partilhas, para começar apresentamos cinco mulheres, às quais são construtoras de sonhos e aprendizados.

Isabela Gonçalves – Integrante da Cooperativa Central da Reforma Agrária do Paraná (CCA) ligada ao MST, onde são centralizados alimentos dos agricultores e agricultoras familiares, que produzem alimentos orgânicos ou em transição e são comercializados na região metropolitana de Curitiba e atualmente no litoral do PR, além da participação em programas como os da alimentação escolar. Os produtos ofertados são obtidos: legumes, verduras e frutas, da grande região de Curitiba, Lapa e Antonina, os processados vêm do Rio Grande do Sul – arrozes, leites etc; de Santa Catarina – queijos, iogurtes, natas, geleias, doces de leite, arrozes etc; do Espírito Santo – cafés; Minas Gerais – cafés; São Paulo – bananas chips, bananas passa etc.

Isabela, agricultora, está em Curitiba construindo a ponte entre os agricultores/as e as/os consumidores, por que o SONHO destes agricultoras/es é que todos nós experimentemos os produtos da reforma agrária, que é muito mais do que um alimento é um jeito de produzir e viver de forma saudável, respeitando a natureza do ambiente e do ser humano ali presente, e mais, que este alimento agroecológico possa ser acessível a cada trabalhadora e trabalhador do campo e da cidade. Vir agora para o litoral foi uma grande experiência de poder contar com toda rede de apoio em Guaratuba e Matinhos, pois além de adquirirem os alimentos elas e eles colaboram no processo de distribuição das cestas e feira.

“Buscamos sobretudo uma aproximação campo e cidade”, entendendo ela como necessária à construção de uma outra concepção de agricultura, de maneira sustentável, respeitando as interações sociedade e natureza. É um sopro de esperança conversar com Isabela.

Átila Costa – Átila trabalha com cartonagem e encadernação, elabora uma diversidade de produtos, entre eles: caixa de costura, encadernação de álbuns, agendas cadernos etc, com a marca @escorpião.amarelo, deixa as nossas vidas mais colorida.

O material básico é o papelão, pretende utilizar restos de papéis destinados à reciclagem, a cola, o tecido, também faz trabalhos sob encomenda. Ela é educadora, já aposentada em um padrão, mas continua na ativa em outro, agora ela se reconhece como artesã, se preparando para a próxima aposentadoria. Está há 19 anos em Guaratuba, já criou o filho aqui, atualmente é pedagoga no Colégio Estadual Zilda Arns Neumann, já exerceu diversas funções, entre elas, diretora, tem atuado muito na cidade de Guaratuba, porém sempre ligada a área da educação, Átila educa por meio da arte.

Laura Célia – confecciona panos de prato, tolhas de mesa, jogos americano, enfeites para cabelo, máscaras, entre outros produtos. Ela é educadora, professora no Colégio Estadual Zilda Arns, já aposentada em um padrão, contudo trabalhando em outro. Há 10 anos em Guaratuba, envolvida entre as atividades da educação e de artesã, utiliza o artesanato como suporte para reavivar o seu espírito na sala de aula e continuar educando e construindo pessoas, Laura é uma apaixonada pelo que faz. Facebook: Laura Célia Silva, Instagram: @silvalauracelia

Bháshantii – comercializa alfajores integrais, temperos prontos, doces, geleias, bombons com e sem açúcar, variados tipos de bolos, massas sem glútens, cocadas, diversos congelados como hambúrgueres, lasanhas, panquecas, salgados, produtos vegetariano e veganos.

Ela é uma terapeuta holística, busca o bem-estar por meio do alimento, tendo a percepção do que aquilo que alimenta o corpo, alimenta também seu modo de ser, é nessa interação que nos constituímos. Usa a cozinha terapia e arteterapia, é instrutora de Ioga e outras terapias holísticas, está em Matinhos há mais de 20 anos, é uma mineirinha com seu jeito carismático de ser, nos transmite paz e esperanças.

Milena Oliveira – Professora, mora em Guaratuba há 11 anos e há 6 trabalha no Colégio Estadual do Campo do Cubatão, na área rural de Guaratuba. Nesse contato com a comunidade, percebeu como o mercado determina o que e como o agricultor vai produzir. Da mesma forma, enquanto consumidora compreende que o mercado determina o que a população come, oferecendo esse tipo de alimento, cultivado com veneno e adubos químicos. Considera que o grupo se mostra como alternativa a essa forma de produção e de comercialização, para agricultores e consumidores, também como uma possibilidade de novas relações, vez que demanda a participação dos seus integrantes para que as atividades ocorram.

Ela contribui nos processos de organização e acompanhamento das entregas aqui em Guaratuba. Entrou no grupo de cestas agroecológicas de Matinhos em maio do ano passado e desde então passou a ir quinzenalmente à cidade vizinha buscar a sua cesta e a de sua mãe. Nesses momentos também teve a oportunidade de conversar com o professor Lesama sobre montar um grupo em Guaratuba, fato que, a partir de contato com outras pessoas, por exemplo, a professora Veranice, pôde se concretizar, de maneira a organizar pessoas que desejam acessar um tipo específico de alimentos (agroecológicos, orgânicos ou em fase de transição, provenientes de agricultores locais e/ou da reforma agrária) de uma forma diferenciada, sem intermediários, aumentando a proximidade entre quem produz e quem compra, o que melhora a renda do agricultor e a saúde de ambos.

E assim, melhorando a qualidade de vida de todos, vão tecendo cestas, esperanças e sonhos.

Para conhecer e adquirir os produtos agroecológicos acesse um dos dois grupos do whatsapp:  Guaratuba ou Matinhos.

Maria Wanda de Alencar é engenheira agrônoma da Prefeitura Municipal de Guaratuba

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