Correio do Litoral
Notícias do Litoral do Paraná

Carta 165. Plágio na sombra da mata

Você, leitor, alguma vez foi vítima de plágio? Eu já, nos dois casos descritos a seguir.

O primeiro aconteceu há um quarto de século. Deixe-me contar. Entre 1986 e 1990 acompanhei repetidas vezes um conhecido fotógrafo da natureza, nas florestas ombrófilas do Paraná, para ajudá-lo a construir o seu arquivo de fotografias dos cogumelos da Mata Atlântica. Na época já tinha bastante experiência como micólogo e o meu papel, nessas caminhadas, era procurar os cogumelos, carregar e apontar os flashes do fotógrafo e identificar as espécies. Não cobrei por essa ajuda, pois dominava a minha confiança na bondade do ser humano e eu acreditava que estava contribuindo para uma causa nobre.

No fim da última caminhada conjunta, em 1990, o fotógrafo se declarou satisfeito com o material fotográfico já acumulado e me propôs que escrevesse um artigo geral sobre cogumelos, para publicar – acompanhando suas fotografias – numa revista popular. Achei uma ideia boa e iniciei a tarefa. Já que nunca antes tinha escrito sobre cogumelos para um público leigo, me vi obrigado a ler bastante, antes de começar a escrever meu próprio texto. Incluindo essa leitura preparatória, gastei um mês inteiro na elaboração do meu artigo. Ao ter meu texto finalizado, entreguei-o ao fotógrafo, para que ele pudesse entrar em contato com as revistas e tentasse vender a matéria. Depois disso não tive mais notícias dele por um ano inteiro, até que o encontrei por acaso na rua, e ele me contou que as suas fotos de cogumelos tinham acabado de ser publicado na Revista Geográfica Universal (N.R. Edição brasileira da National Geographic). Me dirigi imediatamente a uma banca de jornais para comprar o último número da revista: o fascículo de janeiro/fevereiro 1992. Ao abrir a revista tive uma surpresa desagradável: lá estava o meu artigo, mas assinado por uma pessoa desconhecida (texto), junto ao nosso fotógrafo (imagens). Começando a ler o texto logo entendi o que tinha acontecido: o fotógrafo, sem me consultar, tinha entregado o meu artigo àquela desconhecida (depois descobri que era uma jornalista carioca), para que ela usasse o meu texto como base para um artigo independente, numa linguagem mais jornalística. Por azar dele, ela não se deu o trabalho de modificar o meu texto: frases e parágrafos inteiros foram simplesmente copiados do original. Os únicos dois parágrafos que ela acrescentou continham erros grosseiros. O meu nome foi totalmente omitido do artigo: nem fui mencionado como o responsável pelas identificações dos cogumelos fotografados.

Fiquei bastante chateado com isso e o fotógrafo acabou pedindo as suas desculpas, além de aceitar a minha exigência de que no próximo fascículo daquela revista fosse publicado uma explicação a respeito da autoria. Infelizmente não foi cumprida essa promessa e a publicação da retificação nunca ocorreu.

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No início deste ano fui plagiado outra vez. Vou lhes contar essa história também.

Mudei-me para o litoral norte do Paraná em 2003 e desde então visito Antonina e Guaraqueçaba frequentemente. Já nas minhas primeiras visitas a essas cidades, às margens da baía, percebi que seus cais ofereciam uma oportunidade privilegiada para observação das aves estuarinas. Decidi que essa oportunidade ornitológica merecia ser melhor aproveitada pelo turismo local. Assim, gradualmente, fui elaborando um texto para um painel informativo, que a meu ver deveria ser instalado no cais de Antonina, no ponto mais visitado por turistas: o espaço entre o Mercado Municipal e o trapiche. Havendo recursos, outros exemplares do mesmo painel poderiam ser instalados também na Ponta da Pita (Antonina), nos cais de Guaraqueçaba e de Paranaguá e naquelas ilhas dos dois municípios que são mais visitadas por turistas. O meu painel tinha o seguinte conteúdo: para cada uma das 36 espécies estuarinas de aves observáveis a partir dos cais havia um pequeno texto informativo, bilíngue (português e inglês), além do nome científico da espécie e o seu nome vulgar em português e em oito línguas adicionais. Estas línguas são mais ouvidas entre os turistas que visitam o nosso litoral. Para cada ave foi acrescentado o exato período do ano em que está presente no nosso estuário (muitas espécies migram, estando ausentes numa parte do ano) e o número máximo de exemplares contados a partir de um único ponto de observação no cais. Estes últimos dados se baseiam nos meus próprios registros acumulados a partir de 2003. Junto ao texto foi colocado uma fotografia da espécie. Em outubro de 2014 um colega diagramou este material para mim, e o resultado ficou lindo.

Estipulei um preço justo para o produto levando em consideração o fato que o seu conteúdo tinha sido desenvolvido ao longo de um período de doze anos de registros pessoais, período no qual tinha deixado o projeto amadurecer. Com o material pronto, em dezembro de 2014, me dirigi a Antonina, onde fui visitar um hotel cujo proprietário se interessa bastante por turismo vinculado à observação de aves; ele inclusive é entusiasta fotógrafo de aves.
Pedi a ele se podia me ajudar na arrecadação de fundos, junto ao empresariado do litoral, para que a instalação do meu painel pudesse ser realizada. Ele gostou muito do painel, mas achou que naquele momento – a crise financeira tinha se instalado no país – poucos empresários antoninenses estariam dispostos a ajudar. Ele me aconselhou a esperar um pouco, até o tempo melhorar. Sendo assim, esperei até a passagem do Carnaval, e no início de março de 2015 me dirigi à sede de uma ONG socioambiental de Antonina. Esta ONG tem projetos aprovados pela Petrobras Ambiental, há anos trabalhando com recursos amplos. Ali mostrei à sua coordenadora geral o meu material do painel, e contei onde queria que o painel fosse instalado. Ela manifestou bastante interesse, mas chamou a minha atenção por um detalhe: no meu material diagramado os nomes dos autores das fotos, baixadas da Internet, tinham sido apagados e, desta forma, haveria um problema com os direitos autorais. De fato, ela tinha razão; por falta de experiência eu não tinha pensado nisso. Mas era um problema de solução fácil: eu poderia selecionar as fotos na Internet novamente, e dessa vez incluir os nomes dos fotógrafos.

A coordenadora concluiu que a sua ONG poderia executar o meu plano, através de um projeto a ser aprovado pela Petrobras, mas eu teria que esperar mais um pouco. Enquanto isso ela me convidou para uma tarefa alternativa: pediu que eu elaborasse uma cartilha sobre a biodiversidade da região. Essa tarefa acabei não aceitando, pois tinha as minhas próprias prioridades: produzir textos adicionais para o meu futuro livro “Cartas da Mata Atlântica”. Não mais me encontrei com a coordenadora desta ONG nos meses restantes de 2015, pois estava muito ocupado com as minhas próprias tarefas.

Ao visitar Antonina em 25 de janeiro de 2016 resolvi passar pela sede daquela ONG para conversar sobre um outro assunto: uma oferta para servir de guia em caminhadas na natureza local. Imediatamente a coordenadora me perguntou, como se fosse uma casualidade, se eu tinha visto o painel que a sua ONG havia instalado há um mês tinha no cais, ao lado do Mercado Municipal. Este painel continha uma amostra fotográfica das aves mais comuns da baía de Antonina, com os seus nomes científicos e vulgares. Bem, leitor, como você pode imaginar, fiquei estupefato! Declarei-me indignadíssimo. Ainda não tinha visto o painel, mas percebi que a coordenadora já tinha se preparado para me enfrentar, tendo a sua resposta na ponta da língua: “Esperei meses que você resolvesse aquela questão dos direitos autorais, mas como você não mais apareceu por aqui, resolvemos fazer o nosso próprio painel: uma versão muito simplificada da sua proposta”. Respondi que essa desculpa era imprópria, já que ela, em nossa conversa há quase um ano, tinha deixado claro que tinha de aguardar. Além disso, se fosse verdade que ela estava esperando por uma solução para a questão das fotos, por que ela não me chamou! Considerando isso, concluí que a minha exclusão, pela ONG, do seu projeto do painel foi um ato deliberado; não queriam ter despesas comigo.

Após essa conversa desagradável me dirigi ao cais, para ver com os meus próprios olhos aquele produto. Então vi que, de fato, tratava-se de uma versão simplificada do meu projeto, mas com todos os meus elementos essenciais e básicos presentes, pois (i) trata-se de um painel, (ii) instalado ao lado do Mercado Municipal, (iii) mostrando através de fotos as aves da baía, e (iv) para cada espécie apresenta o nome científico e o nome popular. Desta forma, aquela ONG inviabilizou a execução do meu projeto naquele local, já que seria ridículo, lado ao lado, dois painéis muito semelhantes.

Das 18 espécies de aves mostradas no painel da ONG, uma parte das fotos foi obtida na Internet, e outra parte é contribuição de um fotógrafo da região: o proprietário do hotel que me referi acima. O painel, feito de metal, tem 2 m (largura) x 1 m e foi instalado de forma sólida, para que possa resistir aos ventos fortes que sopram naquele local exposto.

No painel é mencionado o nome do patrocinador (Petrobras), dos apoiadores (Movimento Viva + Antonina; Prefeitura Municipal), mas o meu nome – como criador da ideia, foi omitido.

O fato de se tratar de uma obra executada por pessoas sem conhecimento do assunto, está refletido no título do painel: “Aves marinhas de Antonina”. Na realidade, as garças, socós, biguá, saracura etc., mostradas no painel não são espécies marinhas! O meu próprio painel tinha como título: “As aves estuarinas de Antonina, Guaraqueçaba e Paranaguá”.

Entre os meus conhecidos em Antonina, dois já tinham me relatado que tiveram uma experiência semelhante no passado recente: ideias suas, comunicadas em confiança àquela mesma coordenadora, foram executadas pela sua ONG sem que os seus criadores fossem envolvidos ou financeiramente compensados. O que essas duas pessoas têm em comum comigo? São trabalhadores autônomos e solitários: o tipo de gente que é fácil roubar, já que não somos protegidos por uma instituição.

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A tendência do ser humano é acreditar neste tipo de história somente quando, por ingenuidade, acaba passando por uma experiência similar.

De qualquer modo, espero que esta mensagem possa servir como alerta para alguns de vocês, evitando que passam pelo mesmo tipo de aborrecimento.

Fonte: http://www.andredemeijer.net/2016/02/05/carta-165-plagio-na-sombra-da-mata/

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