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Falta de formação em gestão na área da conservação pauta curso na Grande Reserva Mata Atlântica

Imersão realizada na Grande Reserva Mata Atlântica, no Litoral do Paraná, reuniu profissionais de diferentes biomas, conectou experiência internacional e reforçou a necessidade de integrar gestão, território e pessoas para ampliar resultados em conservação no país

Fotos: Gabriel Marchi

A primeira edição brasileira do Curso de Conservação Efetiva, promovido pela Effective Conservation Training Iniciative (ECTI), em parceria com a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) reuniu, ao longo de quase dez dias – de 11 a 20 de abril – profissionais de diferentes regiões do país para conversar sobre um dos principais desafios do setor: a ausência de formação estruturada em gestão para lideranças que atuam na conservação da natureza no país. 

Realizada no território da Grande Reserva Mata Atlântica, em diversos pontos do Litoral do Paraná, a imersão, idealizada pelo biólogo conservacionista Ignacio Jiménez e implementada no Brasil em parceria com a SPVS, reuniu 20 profissionais de 15 organizações, representando diferentes biomas e modelos de atuação.

Estiveram presentes representantes de entidades como Associação Mar Brasil, Mater Natura, Legado das Águas, Rede Trilhas, Associação Mico-Leão-Dourado, Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Fundação Pró-Natureza – Funatura, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Projeto Tamar, Refauna, Onçafari, Instituto de Pesquisas Cananéia – IpeC, Instituto Cerrados, e Instituto Homem Pantaneiro.

“Via de regra, o que se percebe no cenário é a presença de pessoas com formação em áreas como biologia ou engenharia, por exemplo, entre outras, que passam a ocupar cargos de gestão e acabam dedicando a maior parte do tempo à burocracia dos projetos e à coordenação de pessoas”, afirma Ricardo Borges, coordenador de comunicação e parcerias estratégicas da Grande Reserva. 

Gestão no centro da agenda

A formação combinou uma etapa online, baseada no estudo do livro Produção de Natureza, de autoria de Ignacio, com a imersão presencial voltada à aplicação prática de ferramentas de liderança, cultura organizacional e governança. A proposta foi aproximar o campo da conservação de metodologias já consolidadas no ambiente corporativo. “A conservação é uma atividade complexa, que exige habilidades que vão muito além do conhecimento técnico”, afirma Ricardo. 

Para Clóvis Borges, diretor da SPVS, o avanço da agenda no país passa, necessariamente, por esse reposicionamento. “A conservação da biodiversidade no Brasil entrou em uma nova fase. Não basta ampliar áreas protegidas ou gerar conhecimento técnico: é preciso garantir que as organizações sejam capazes de operar com eficiência, estratégia e capacidade de articulação. O que esse curso evidencia é que o investimento em liderança e gestão é hoje uma das alavancas mais relevantes para transformar potencial em resultado concreto nos territórios”. 

Durante o encontro, os participantes tiveram contato com especialistas internacionais e lideranças brasileiras, em uma programação que mesclou palestras, dinâmicas e experiências em campo.

Relações humanas como ponto de atenção 

Entre os principais aprendizados destacados pelos participantes está a centralidade das relações humanas para o sucesso de projetos de conservação. Para Caio Louzada, pesquisador do Instituto de Pesquisas Cananéia, o curso contribuiu para reposicionar a forma como os projetos são conduzidos.

“A gente passa a entender que a conservação é feita de pessoas. Quando conseguimos compreender melhor esses atores e construir conexões mais profundas, fica mais viável conciliar interesses que, muitas vezes, são divergentes”, afirma.

Ferramentas práticas e aplicação direta

A aplicabilidade dos conteúdos também foi apontada como um diferencial. Para Laila Murebe, coordenadora técnica da Associação Mico-Leão-Dourado, a experiência trouxe ferramentas concretas para o cotidiano profissional.

“Foi a primeira imersão que fiz com tantas possibilidades aplicáveis ao meu dia a dia, trabalho e vida pessoal. Dinâmicas como escuta ativa e comunicação não violenta têm impacto direto na forma como lideramos equipes e nos relacionamos com diferentes atores envolvidos com nossos projetos”, diz.

Conservação e desenvolvimento

Outro eixo que ganhou força ao longo da formação foi a integração entre conservação, território e geração de valor. Para Mariana Vasquez, gestora da Reserva Natural Serra do Tombador, da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, essa mudança de abordagem amplia o impacto das iniciativas.

“A conservação está diretamente conectada a benefícios para comunidades, ao diálogo com financiadores e à construção de soluções viáveis no território”.

Rede de colaboração e impacto

O curso também funcionou como um espaço de articulação entre organizações. Segundo os organizadores, já durante a imersão foram identificadas oportunidades de cooperação, troca de metodologias e construção de projetos conjuntos.

“O que se forma aqui é uma rede. As pessoas saem mais conectadas e com mais capacidade de atuação conjunta”, diz Ricardo Borges. 

Brasil no centro de uma agenda global

Para o idealizador do curso, Ignacio Jiménez, a chegada da iniciativa ao Brasil tem um significado estratégico na agenda internacional de conservação.

“A conservação efetiva não acontece por acaso. Ela depende de pessoas preparadas para tomar decisões difíceis, liderar equipes, lidar com conflitos e construir alianças. Em muitos países, o principal gargalo não está na falta de conhecimento técnico, mas na ausência de formação em gestão. Trazer esse curso para o Brasil é reconhecer o enorme potencial do país e contribuir para que suas lideranças estejam à altura desse desafio”.

A realização do curso no país reforça o papel estratégico do Brasil na agenda global, ainda subaproveitado frente à sua dimensão territorial e biodiversidade.

“O Brasil pode ser líder mundial nesse campo, mas ainda não reconheceu plenamente esse papel”, conclui Ignacio. 

Sobre a SPVS

Fundada em 1984, a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) é uma das mais relevantes organizações conservacionistas do Brasil, com foco na conservação da Mata Atlântica. Atua com inovação, base técnica sólida e visão restaurativa do desenvolvimento, valorizando a natureza como ativo estratégico para o bem-estar humano e para a adequada gestão territorial.
Sobre a Grande Reserva Mata Atlântica

A Grande Reserva Mata Atlântica é uma iniciativa que une diversos atores para desenvolver ações de turismo sustentável na maior área contínua de Mata Atlântica do mundo, com quase 3 milhões de hectares conservados entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Reconhecida nacional e internacionalmente, a iniciativa promove o ecoturismo responsável, integrando o patrimônio natural, cultural e histórico desse território único. Os participantes compartilham a convicção que a preservação e a conservação da natureza são fundamentais para o equilíbrio do planeta e para as gerações futuras, e que o turismo pode ser uma atividade econômica positiva desde que realizada de forma responsável e sustentável.


Texto: Claudia Guadagnin / SPVS / Grande Reserva Mata Atlântica. 

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