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Prisão de Queiroz cria fake news envolvendo Guaratuba

A semana foi marcada por um fake news que resgata a maior polêmica de Guaratuba, uma intrincada trama envolvendo polícias, políticos e a comunidade, com a contribuição decisiva do sensacionalismo da imprensa do Paraná e do Brasil: a morte dos meninos Leandro Bossi e Evandro Ramos Caetano, ambos com 6 anos, em rituais satânicos que estariam acontecendo na cidade na década de 1990.

Nada ficou provado e é mais provável que não tenham ocorrido os rituais, nem tampouco havia bruxas em Guaratuba, acusação feita à mulher e à filha do prefeito da época, Aldo Abagge: Celina e Beatriz Abagge. Elas chegaram a confessar a morte de Evandro sob tortura, mas foram absolvidas, em 1998, no mais longo julgamento da história do Judiciário do Brasil, que durou 34 dias.

O Ministério Público recorreu da absolvição e um novo julgamento foi marcado. Celina, ao atingir 70 anos, foi beneficiada pela prescrição. Em 2011, Beatriz foi condenada a 21 anos, por 4 votos a 3 no juri popular, mas teve a pena perdoada em 2016. Hoje, elas ainda lutam para mostrar que são inocentes.

Outras cinco pessoas foram julgadas pela morte de Evandro. Em 2004, o pai de santo Osvaldo Marcineiro, o pintor Vicente Paulo Ferreira e o artesão Davi dos Santos Soares foram condenados. Francisco Sérgio Cristofolini e Airton Bardelli dos Santos, ex-funcionários da Prefeitura, foram absolvidos, em 2005.

O “Anjo” dos Bolsonaro foi investigado em Guaratuba

Wassef e Flavio Bolsonaro – foto: Revista Fórum / Reprodução

Toda essa história veio à tona depois da prisão, na quinta-feira (18), de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, senador e filho do presidente Jair Bolsonaro. Queiroz está sendo investigado pela participação em suposto esquema de “rachadinha” de salários do gabinete para beneficiar o então deputado estadual Flavio. Nas investigações, aparecem o envolvimento com as milícias no Rio de Janeiro. Queiroz foi encontrado na chácara de um advogado do senador e do presidente, Frederick Wassef, em Atibaia (SP).

A imprensa descobriu em arquivos de jornais que Wassef, apelidado de “Anjo” na operação para capturar Queiroz, teve um pedido de prisão feito em 1992 pelo delegado Luiz Carlos de Oliveira, que investigava o desaparecimento de Leandro Bossi.

As redes sociais apontavam que o “Anjo” dos Bolsonaro, teria tido envolvimento em rituais satânicos. A própria imprensa tratou e desfazer a mentira, tendo como uma das fontes o jornalista Ivan Mizanzuk, que recuperou a história para um já famoso podcast e uma série que a rede Globo vai apresentar.

Wassef fazia parte de uma seita mística, Lineamento Universal Superior (LUS), com sede na Argentina, que misturava espiritismo e conversas com seres extraterrestres. Na ocasião do desaparecimento das crianças, Wassef esteve em Guaratuba, no hotel Villa Real, onde também se hospedaram líder da seita, a brasileira Valentina de Andrade, e seu marido, o argentino Jose Taruggi. No mesmo hotel, trabalhava como camareira a mãe de Leandro, que inclusive levava o menino ao trabalho.

A ordem de prisão foi pedida para um endereço na mesma cidade do sítio, Atibaia, mas acabou nem sendo decretada pela Justiça. No final, não houve acusação contra Wassef e os membros da seita. Nem mesmo há certeza sobre a morte do menino Leandro Bossi, já que, diferente de Evandro, nenhum corpo foi encontrado. Seus pais alimentaram por décadas a esperança de encontrar o filho vivo. Os recortes dos jornais são verdadeiros, mas as informações contidas neles, no mínimo, exageradas.

Fabrício Queiroz está preso, a Justiça negou um pedido de prisão domiciliar e Frederick Wassef, nesta data (domingo, 21 de junho), era investigado por obstrução da Justiça.

Com informações do G1, UOL, Terra, Correio Braziliense e O Estado de S. Paulo

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